Arquivos - Página 2

  • Ética e novas interrogações
    v. 67 n. 266 (2007)

    Não basta o espanto de quem pergunta: Em que mundo estamos? Admitindo que ele muda, como não admitir que nós também mudamos?! Parece que temos mais facilidade de constatar a evolução externa a nós do que perceber que também nosso olhar evolui, quando é principalmente por isso que o mundo não é mais o que era. Mudamos e, por isso, alteramos nossa perspectiva! Também é verdade: conservamos a mesma identidade, mas trata-se de uma identidade criativa e, ao mesmo tempo, que está sob o efeito de volúveis circunstâncias. Parece igualmente acertado: não podemos ser simplórios; mas como fugir da seguinte constatação: o conjunto da evolução que também condiciona nossas possibilidades, interrogações, nossa liberdade, vontade e decisão, ou seja, que incide sobre nossa mundividência e, portanto, sobre nossa convivência e sobre o rumo de nossa criação? Então, articular rápidas e profundas transformações, não só objetivamente falando, mas também dando-se conta das transformações acontecidas em nós e admitidas como próprias da identidade humana e cristã é tarefa dos seguidores de Jesus Cristo, de teólogos e pastores. Mais: é questão de fidelidade ao mistério da encarnação do Verbo. É dar chance de ouvir os apelos das pessoas, quer as consideremos individualmente, ou enquanto inseridas em determinadas associações e culturas. È ouvir a voz do Senhor no aqui e agora da história. Também Jesus, presente, viu e se moveu de compaixão, afirma a tradição eclesial. Também hoje, quantos vêem, comovem-se e agem! Quantos vêem e não se comovem! Outros nem vêem! Outros ainda buscam as raízes da “comoção”, da misericórdia, do amor, ou seja, da identidade humana e cristã. Sim, de muitos modos, o Senhor encanta, estimula e repete: “Vá e faça a mesma coisa!” Articular, pois, fé e vida no dinamismo da história e no pluralismo cultural e religioso de nossos dias é tarefa dos seguidores de Jesus Cristo.

    Deste modo, criamos e nos encontramos em novas condições de vida: é o que Frei Antônio Moser constata, realçando a comunicação e relacionando-a com a ética.

    Igualmente Francisco de Aquino Júnior, evidenciando algumas características do que entende por globalização, sonda interpelações e respostas novas dos discípulos de Jesus Cristo.

    Também Urbano Zilles pergunta pelo sentido da globalização, inquieta-se e fala das perspectivas para a Universidade católica neste processo.

    Em todas as circunstâncias, a pergunta dos que caminham na certeza e na penumbra da fé continua sendo esta: Quem és tu, Senhor? Que queres que eu faça? Não se tratando de uma pergunta áulica mas movida pelo desejo de descobrir ou alimentar uma proposta de vida, Dirceu Benincá, em sintonia com a Igreja católica no Brasil, ensaia o anúncio do Jesus Cristo solidário com os excluídos do mundo.

    Por fim, cada um a seu modo e a partir de pontos de partida semelhantes, também Agenor Brighenti, Pedro Assis Ribeiro de Oliveira e Wonfgang Gruen, em contexto globalizado, põem-se à escuta das interpelações à solidariedade que vêm da África e dos anseios, da América e da América latina e caribenha, às vésperas da V CELAM.

    Quem sabe, a pertinência das colocações comova!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • V CELAM: Aparecida - 2007
    v. 67 n. 265 (2007)

    Um significativo evento eclesial atrai nossas atenções neste ano de 2007: a V Conferência do Episcopado Latino-Americano, em Aparecida. Na esteira do Vaticano II e, especificamente, a partir de Medellín (1968), a Igreja católica na América Latina, através de seus representantes e depois de mais um mutirão de preparação, se reúne no Senhor, em Aparecida, para ouvir Sua Palavra, e, ao mesmo tempo, buscar os sinais de Deus no hoje do Continente, para qualificar seu testemunho evangelizador. O evento é ocasião para que todos os seus membros percebam o convite que lhes é feito e prossigam no caminho da conversão, atualizando seu testemunho de fé, de esperança e caridade, a partir dos dois pilares acima acenados: a Palavra de Deus e a ausculta dos sinais dos tempos. A conjugação ideal destes dois pólos continua sendo, teórica e praticamente, o sentido da busca. Frei Clodovis Boff traz uma bela contribuição para esta tarefa, acentuando que a mística do discipulado de Jesus é o motor da atuação sociolibertadora. “Para quem’ Ele, nossos povos tenham vida”!

    Nosso conhecido e querido Pe. Comblin nos transmite sua percepção do “mundo” em que vivemos e que construímos. Fala de uma revolução cultural, após os anos 70! Sua inquietação pode ser também a nossa ou, quem sabe, despertá-la também em nós, para que reforcemos nosso “estar com o Senhor”, Senhor que nos é dado encontrar nos caminhos da história humana.

    José Ariovaldo da Silva continua discorrendo (cf. REB 66 (2006) 787-806) sobre a celebração da fé em contexto muito conhecido de nosso povo latino-americano, o de santuário. Ele nos lembra elementos teológico-litúrgicos para aliarmos memória e compromisso de vida.

    Celebramos, há pouco, a manifestação da luminosidade de Deus na e como fragilidade humana. Também a sexualidade é uma área onde se manifesta a beleza e a fragilidade do ser humano. A professora e psicoterapeuta Eliana Massih, a partir de sua atividade, estabelece um esclarecedor diálogo entre sexualidade humana e catolicismo.

    O conhecido Pe. Hubert Lepargneur acompanha os avanços técnico-científicos numa das áreas mais instigantes e complexas da atualidade – a manipulação genética – e traz para discussão as interrogações e as sendas entreabertas pelo imperativo ético.

    O Pe. Geraldo Luiz Borges Hackmann expressa, de forma luminosa, a relação entre eclesiologia e CDC. É a materialidade sacramental da Igreja que é sabiamente contemplada!

    Enfim, a professora Maria da Conceição Silva faz memória de um dos momentos mais importantes do processo de secularização no Brasil. Este exercício de memória responde pelo “como somos hoje”.

    Cara/o leitora/o, como Você pode notar, a composição da REB trouxe e trará de ora em diante uma pequena alteração. Pareceres partilhados entre os membros do Conselho Editorial e Consultivo constataram o óbvio: a revolução ocorrida, já há tempo, no campo da comunicação – hoje e para um sempre maior número de pessoas, em tempo real, através de meios eletrônicos. Por isso, a REB deixa de trazer matéria de caráter jornalístico e se concentra no que é mais específico e próprio de um periódico como ela: a reflexão teológico-pastoral, embora, por certo, pressuponha o locus sócio-eclesial. Por outro lado, mantém o caráter de interlocução personalizada, pois, nela, somos pessoas e é com pessoas e como pessoas que nos relacionamos. Por isso, e com todo carinho, embora de cobertura incompleta, mantemos a seção de necrologia.

    Que o espírito de partilha nos encante e testemunhe nossa razão de ser: a evangelização no aqui e agora!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Celebração da Fé
    v. 66 n. 264 (2006)

    Desta vez, a REB tem a satisfação de convidar seus leitores para uma revisitação da celebração da fé no mistério de Deus, revelado por e em Jesus Cristo. Certamente é uma ação quase diária ou semanal para a maioria. E, se entre as formas de celebração a eucarística representa a fonte e o cume da ação da Igreja, como nos ensinam os Padres do Vaticano II, então nada mais convidativo do que sempre tomar distância para uma sempre nova aproximação. Como um hábil cicerone e de maneira didática, José Ariovaldo da Silva, retoma, para os mais experientes, e indica, para os mais iniciantes, conceitos básicos sobre “liturgia” e “celebração”, apontando, em seguida, a benéfica ação de Deus em favor das pessoas. Uma vez constatada esta ação, surge o desejo de se apresentar para uma missão pessoal e socialmente transformadora. Uma dinâmica circular e permanente: do presente ao passado e do passado ao presente e ao futuro; uma dinâmica que realça, que torna célebre a ação de Deus e o resgate da dignidade humana sempre que alguém se compromete, por amor, com o bem-estar integral do ser humano.

    Relacionada com esta participação na missão de Deus, está a formação de lideranças de comunidades de fé, particularmente de candidatos a ministérios eclesiais, e especificamente de sacerdotes. Sílvio José Benelli levanta então uma pergunta, antiga e sempre nova: em nossos seminários e/ou casas de formação, temos clareza a respeito das motivações pelas quais, mais ou menos conscientemente, adotamos determinados paradigmas eclesiais, humanos e pedagógicos na preparação de pastores do povo de Deus? Partindo de uma situação específica, Benelli ajuda a tomar consciência de alguns paradigmas e assinala a importância de se buscar os melhores caminhos para uma melhor articulação entre ministérios e razão de ser da Comunidade eclesial.

    Da liturgia e da formação, o convite, agora, é para estender os horizontes. E neste panorama imaginário mais extenso, deparemo-nos com o fenômeno da vida sobre a Terra, com suas multiformes manifestações e segredos. É o ser humano que continuamente amplia seus conhecimentos teóricos e técnicos, chegando à manipulação da vida, à maior possibilidade de tomar consciência de um novo campo do saber: o das ciências da vida e, especificamente, da ética em relação à mesma. Em boa hora, Leo Pessini reúne dados, para, de maneira informal e didática, trazer presente a contribuição dos que ajudaram e ajudam a configurar o que hoje se convencionou denominar sob o termo de “bioética”. Mas o importante mesmo é que acompanhar os avanços e tomar consciência de questões e dilemas atuais certamente nos ressitua como co-irmãos e corresponsáveis com e por toda a Criação.

    Outro panorama neste vasto horizonte para além da Igreja católica, também em parte decorrente de avanços científicos e técnicos, recoloca o leitor no convívio com as mais diferentes tradições e opções religiosas. A simples alusão a “convívio” já alude, certamente, a uma utopia, a um ideal. Pode-se então perguntar: que fundamentação teórica e prática favoreceria este convívio, na diversidade religiosa que chega hoje a quase todas as pessoas? É aqui, que Maria Clara Bingemer e Gilbraz de Souza Aragão afirmam: há dados provenientes das ciências físicas que podem ajudar na formulação de uma compreensão ou teologia do diálogo inter-religioso, pressupondo a diferenciação e almejando complementaridade, para que, no final, o co-existir humano possa ser prazeroso e esperançoso convívio.

    Que a partilha das considerações deste fascículo seja proveitosa a todos!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Uma agenda conciliar 40 anos depois
    v. 66 n. 263 (2006)

    Conforme foi anunciado no fascículo anterior, apresentamos agora a segunda parte do balanço feito no Simpósio Internacional – 40 anos do Concílio Vaticano II, acontecido na PUC-SP, de 31 de outubro a 03 de novembro de 2005. Recordamos que este simpósio aconteceu graças à parceria entre o Instituto Franciscano de Antropologia, um órgão da Universidade São Francisco (Bragança Paulista), o Institut für Theologie und Politik (Münster, Alemanha), o Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, representados, respectivamente, por Alberto da Silva Moreira, Michael Ramminger e Afonso Maria Ligorio Soares, e as entidades patrocinadoras: Adveniat e Missionszentrale der Franziskaner. O simpósio se colocou no esforço de manter abertas as vias de diálogo entre cristãos do Norte e do Sul, no interior da América Latina, e de encontrar caminhos que pudessem interpretar e traduzir, no pensamento e na ação da Igreja de hoje, o espírito conciliar.

    No fascículo anterior reunimos contribuições que enfocaram o contexto histórico e a recepção do Concílio na Europa e na América Latina. Neste, reunimos os autores que, de acordo com a programação do Simpósio, enfocaram basicamente dois aspectos: 1) a interpretação do Concílio, ou seja, o exercício para sempre de novo identificar, realçar e socializar suas intuições fundamentais e, neste esforço, as diferentes e até contrastantes leituras do evento conciliar que se deparam e se confrontam no evoluir dos 40 anos de pós-Concílio; 2) A tentativa de identificar as principais características de nosso tempo; aqui, os autores também se inspiram na recomendação do próprio Concílio, de perceber e interpretar, à luz da Palavra de Deus, os sinais dos tempos. Trata-se do intuito de contribuir para o desempenho da missão da Igreja, na perspectiva apresentada pelo saudoso Papa João XXIII no discurso de abertura do Concílio, quando sabiamente recordou que uma coisa é o depósito da fé, imutável em sua essência, e outra é sua tradução para o presente momento da história humana, em suas mais variadas situações, de modo que se torne compreensível. Por isso, em sua missão, a Igreja dirige simultaneamente sua atenção tanto para as fontes de sua fé – o mistério de Jesus Cristo e a tradição eclesial – como para o presente histórico das pessoas e dela mesma, adaptando a linguagem. Contribuem neste esforço: Paulo Suess, Edênio Valle, José Comblin, Maria Cecília Domezi, Marcelo de Barros Souza e Alberto da Silva Moreira. Lembramos também que os textos do Simpósio também podem ser acessados no seguinte endereço da Rede: http://servicioskoinonia.org/LibrosDigitales/index.php

    Por último e com satisfação, damos espaço à primeira parte da exposição de pressupostos epistemológicos destinados a ajudar na compreensão teológica do diálogo inter-religioso. Gilbraz de Souza Aragão e Maria Clara Lucchetti Bingemer partilham seu trabalho.

    Agradecendo aos colaboradores, desejamos que os presentes ensaios contribuam para dinamizar o anúncio do Evangelho em nossos dias.

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Eucaristia: otimizar a celebração
    v. 66 n. 262 (2006)

    Os artigos deste fascículo tratam, basicamente, de três assuntos: celebração eucarístiaca, V Conferência do CELAM, e Vaticano II.

    A celebração eucarística é abordada nas circunstâncias dadas pela perspectiva de uma revisão da tradução do Missal Romano, em sua próxima terceira edição brasileira, e pela realização do 15º Congresso Eucarístico Nacional. Aqui, a celebração eucaristia é enfocada a partir de um aspecto específico: a participação da assembléia orante conforme as Orações Eucarísticas ora em uso. Francisco Taborda faz uma ampla análise das intervenções da referida assembléia e propõe mudanças para a nova edição do Missal. Ademais, ao fazer esta análise, o autor trabalha com critérios que apontam para o sentido e a riqueza teológico-pastoral-espiritual da Eucaristia. Tendo presente o conjunto intencional das Orações Eucarísticas, pode-se articular melhor tradição e adaptação simbólico-cultural, instruir e, sobretudo, rezar em condições relativamente otimais.

    Para encaminhar a agenda da Va Conferência do CELAM, marcada para acontecer em Aparecida, em maio de 2007, e servir como pontapé inicial, foi elaborado e distribuído um documento de trabalho, intitulado: Documento de Participação da Va Conferência dos Bispos da América Latina. Agenor Brighenti deseja responder a este convite dirigido às Comunidades de fé e partilha seus pontos de vista. Ele faz um resumo do Documento e um comentário analítico do ponto de vista dos conteúdos, da ordem os mesmos, do método e da relação com a tradição eclesial latino-americana. A partir disso, apresenta sugestões que dizem respeito à orientação eclesiológica de fundo e às grandes linhas da práxis pastoral da Igreja católica no hoje e no amanhã do Continente.

    O terceiro assunto diz respeito ao Vaticano II. Trata-se de uma parte do balanço, após 40 anos, apresentado no Simpósio Internacional 40 anos do Concílio Vaticano II, acontecido na PUC-SP, de 31 de outubro a 03 de novembro de 2005. Este simpósio se concretizou, graças à parceria entre o Instituto Franciscano de Antropologia, um órgão da Universidade São Francisco (Bragança Paulista), o Institut für Theologie und Politik (Münster, Alemanha) e o Departamento de Teologia e Ciências da Religião da PUC-SP, representados, respectivamente, por Alberto da Silva Moreira, Michael Ramminger e Afonso Maria Ligorio Soares, e as entidades patrocinadoras: Adveniat e Missionszentrale der Franziskaner. Com o simpósio sonhou-se em contribuir para manter abertas as vias de diálogo entre cristãos do Norte e do Sul, no interior da América Latina, e encontrar caminhos que interpretem e traduzam, no pensamento e na ação da Igreja, hoje, o espírito conciliar. Neste fascículo, apresentamos contribuições de Riolando Azzi, que nos ressitua no contexto do Concílio, de José María Vigil e de Francisco Houtart, que abordam, respectivamente, a recepção do Concílio na América Latina e na Europa. A segunda parte virá no próximo fascículo; enquanto isso, pode-se acessar: http://servicioskoinonia.org/LibrosDigitales/index.php

    Proveitosa leitura, também com o rico material em outras seções deste fascículo!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Liturgia: lugar da teologia
    v. 66 n. 261 (2006)

    O conteúdo deste fascículo gravita, basicamente, em torno de dois focos: o da Eucaristia, passando pela Liturgia como um todo e pela via da beleza, e a revisitação do Vaticano II, após 40 anos de seu encerramento.

    O foco eucarístico: De modo um pouco diferenciado, tendo o cristianismo como horizonte, reunimo-nos periodicamente para celebrar o dom do Senhor. O dom do Senhor está admiravelmente resumido na sua morte e ressurreição, ou seja, na Sua Páscoa. Entrega, generosa e consciente, de seu corpo, de sua vida. Entrega transfigurada na Sua Ressurreição. Esta passagem da morte para a vida assume e resume a permanente e fundante aspiração de toda a humanidade. Mas, de modo particular, a Páscoa do Senhor é dom acolhido e missão de todos os Seus seguidores. Passagem que não é, para nós, contemplação platônica. Ao assumir o que, por graça, nos pertence, Ele nos associa no dinamismo do Amor. Amor que é passagem da morte para a vida, pois “quem ama passa da morte para a vida”. Amor-doação, que, conseqüentemente, significa encanto, festa, beleza, vida nova. É experiência de Deus, que nos transforma e nos envia para dentro de nosso próprio mundo como portadores desta Boa-Nova, como sal e luz, para proclamar e exercer misericórdia, para sermos, Nele, fermento de renovação.

    Pertence, pois, à natureza mesma dos seguidores de Cristo celebrar o Dia do Senhor; celebrar na certeza o Seu dia e na firme esperança o nosso. Na Igreja católica afirmamos que esta celebração – memória-atualização – é nosso ponto mais alto, de convergência e de envio.

    Nada mais natural, portanto, que nós, Igreja católica, ainda sob a inspiração de João Paulo II assumida por Bento XVI, tenhamos realizado há pouco um sínodo dos bispos centrado sobre a temática eucarística. Nada mais central e pastoralmente determinante que, no Brasil, celebremos em julho próximo o XV Congresso Eucarístico Nacional.

    É, pois, nesta sintonia que amigos e benfeitores nossos – Fr. Sinivaldo Silva Tavares, Cônego Pedro Carlos Cipolini, Pe. Elias Wolff, Dom Filippo Santoro, Cardeal Serafim Fernandes de Araújo, através da REB, apontam para o mistério celebrado, articulando linguagem racional, simbólica e celebrativa.

    Outro foco de atenção com justiça contemplado neste fascículo é o da revisitação do Vaticano II, por ocasião do quadragésimo aniversário de seu encerramento. Não se apresenta aqui um balanço global, mas uma abordagem através de duas janelas: a da relação entre Igreja e sociedade – com atenção particular à situação do Brasil – na Constituição Gaudium et Spes, pelo Pe. Mário de França Miranda; e a da natureza da Igreja – evangelizar –, ou seja, sua relação com as religiões não-cristãs e com a humanidade como um todo, no Decreto Ad Gentes, pelo Pe. Paulo Suess. Em torno do Vat. II temos ainda lúcida e breve descrição do “tempo novo” que ele nos trouxe, tempo que nos convida a discernir e seguir os sinais de Deus na história, por Eduardo Hoornaert.

    Ano novo, vida nova!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • A Igreja que sonhamos
    v. 65 n. 260 (2005)

    Segundo o relato das fontes franciscanas, São Francisco, no início de sua conversão, buscando a vontade de Deus, certa ocasião, na igrejinha de São Damião, do crucifixo bizantino ali exposto ouviu o seguinte: Francisco, restaura minha Igreja, pois, como vês, está em ruínas! Então os olhos da percepção de Francisco se abriram e ele se deu ao trabalho de restauros materiais; aos poucos, estes seus olhos se abriram um pouco mais e ele se deu conta do leproso; e, ainda um pouco mais abertos, percebeu que, também e principalmente, devia restaurar a si mesmo; e a partir deste itinerário, jubiloso, integrou em alto grau e em Deus todas as criaturas... Onde ou em quem buscou e encontrou seu horizonte de utopia, de Igreja ideal? Foi inspiração divina, diria ele!

    O Vaticano II, há 40 anos, também sob a mesma inspiração, gerou uma representação prática e ideal de Igreja, e desencadeou um movimento primaveril, reassumindo a convicção de uma Igreja, por natureza, semper reformanda. E indicou o caminho, pessoal e comunitário: por um lado, permanente retorno às fontes da Tradição e da gênese bíblica, e, por outro, escuta e fidelidade aos sinais dos tempos, ou seja, re-encantamento pelo homem novo, segundo a imagem de Jesus Cristo, imagem descoberta e servida nas mais diversas formas de evangelização na atualidade do mundo.

    Hoje, como pessoas e Igreja, no início de um novo milênio e de um novo pontificado, num contexto social, cultural e religioso em rápidas e profundas mudanças, inspirados nas fontes da espiritualidade cristã, que sonho ou que utopia nos encanta? Que alegrias e esperanças, angústias e sofrimentos percebemos? E, sobretudo, que colaboração apresentamos? Nesta perspectiva:

    João Batista Libanio constrói um paradigma de Igreja para os dias de hoje a partir da herança do Vaticano II e de Medellín, ressaltando alguns traços fundamentais desta herança, tanto em relação ao contexto do pluralismo mundial, como latino-americano, em particular. Retomar criativamente esta herança é fundamental.

    Faustino Teixeira, situando a Igreja no pluralismo religioso atual, afirma que ela é convidada a perscrutar este sinal e a captar seu significado mais profundo, à luz do desígnio salvífico de Deus. Levada por cortesia espiritual e senso de hospitalidade, a ela caberia profundo respeito e simpatia por toda experiência religiosa.

    José Comblin, evocando sua experiência pessoal, afirma ser preciso buscar e reencontrar a mística de Jesus Cristo e, a partir dela, elaborar um novo projeto de construção de sinais do Reino, atendendo principalmente aos pobres, que ele localiza prioritariamente na África.

    Olga Consuelo Vélez Caro, também inspirada na herança do Vaticano II, explicita alguns apelos à Igreja, provindos do mundo atual; responder a eles significa ser fiel a Jesus Cristo hoje.

    Carlos César dos Santos e Gilvander Luís Moreira, partindo da experiência do 11o Intereclesial, reafirmam a identidade das CEBs e, através delas, apresentam a utopia e uma prática libertadora da Igreja.

    Igreja una, em torno do mistério de Cristo; santa, portadora da utopia de plenitude dos filhos de Deus; católica, na pluralidade das formas; apostólica, anunciadora da boa-nova de Jesus Cristo, na e pela prática da caridade! Que o Espírito te ilumine no contínuo discernimento da vontade de Deus em meio às novas situações sociais e te oriente nos caminhos de uma ação evangelizadora eficaz!

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Religião e pós-modernidade
    v. 65 n. 259 (2005)

    Para alguns é surpresa, para outros é óbvio que aqui e acolá, na sociedade de cultura ocidental apareçam questões tais como: “sim” ou “não” ao uso público de símbolos religiosos, como crucifixos ou véus, ou que se construam aqui um templo budista, ou acolá, uma mesquita em meio a edifícios de culto cristão. Surpresa ou não, o que parece certo é que algumas obviedades vão sendo desfeitas com o surgimento de novas fronteiras culturais. Normalmente pluralismo substitui uniformismo, sempre obviamente com uma pitada de relativização. Neste quadro, Hubert Lepargneur traz à discussão a temática da formação e da informação no âmbito da relação entre religiosidade e pós-modernidade. O que antes, no Ocidente, parecia uma conquista irreversível – a secularização –, já não é hoje tão evidente. Ou seja, recolocam-se em discussão os fundamentos dos valores que orientam a convivência social. Assim, reaparece que a função do Estado seja a de promover e possibilitar informação religiosa, mostrar o fato religioso como componente óbvio da cultura humana e encontrar denominadores éticos comuns que embasem o viverem sociedade. Às igrejas e a outras denominações religiosas, dar formação religiosa, ou seja, construir convicções de vida sobre uma fé, a partir da livre escolha da pessoa. Qual a relação entre as partes nestas tarefas? A discussão está em aberto...

    O transcurso, no final deste ano, dos 40 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, nos oferece ocasião para um balanço e nos lança à sondagem de perspectivas. Manoel Godoy tomou para si a tarefa de fazer um ensaio neste sentido e, ao final, o que ele nos comunica é uma constatação e uma inquietação. A constatação é a de que o Vaticano II foi uma inspiração do Espírito Santo, que o bom Papa João XXIII acolheu e propôs à Igreja católica para que ela restabelecesse o diálogo com as pessoas de uma sociedade secularizada. A inquietação é a de que, hoje, já não basta esta premissa, porque a tônica estabelecida pelo conviver marcadamente pluralista da cultura atual já não cabe no secularismo, mas se encontra em busca de novos paradigmas. Em que condições se encontra hoje a Igreja católica para que se possa ter esperança de que ela corresponda adequadamente a esta demanda, mesmo se o Espírito sopra onde, quando e como quer?
    Evidentemente, as relações humanas são marcadas pelo sujeito das mesmas: o ser humano, individualmente e enquanto pessoa. A ele cabe a tarefa de gerenciar – e isto se reflete diretamente em sua ação social – o fascínio que o poder exerce sobre ele, poder que lhe confere não poucas possibilidades como também lhe prepara não poucas armadilhas. As tentações e as possibilidades do exercício do poder são, pois, o tema, fascinante e provocador, de Afonso Murad. É um assunto que interessa a todos, de uma forma ou de outra, dentro ou fora de instituições religiosas, mas sobretudo a quem cabe uma maior fatia no exercício de funções que impliquem tomadas de decisão, estabelecimento de rumos.

    Em seguida, dois ensaios recordam o que o sonho de uma Igreja renovada pela revisitação das fontes e presente, como fermento dialogante, em todas as esferas da atividade humana pode desencadear. Especificamente, é-nos oferecida a chance de considerar a recepção do Vaticano II em regiões de fronteira civilizatória e cristã, especificamente nas regiões brasileiras do Maranhão e do Centro-Oeste, e a recepção e a divulgação do evento conciliar pelos franciscanos de Petrópolis, na década de 60. Esta “garimpagem” nos sugere o “toque” e a busca de uma “paixão” evangélica, cujas características se manifestam no exercício da missão.

    A Redação da REB deseja às leitoras e aos leitores destes ensaios que a fé lhes seja alimentada e a ação, evangelicamente qualificada.

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Para além da idolatria!
    v. 65 n. 258 (2005)

    É óbvio que a afirmação do poeta Antônio Machado – o caminho se faz caminhando – se aplica também à práxis pastoral e ao pensar teológico. Aqui, o primeiro ensaio deste fascículo tem esta característica. Cláudio de Oliveira Ribeiro, levando em conta o caminhar teológico latino-americano dos últimos anos, aponta algumas perspectivas do fazer teológico. Com efeito, os caminhos percorridos, percorridos estão; mas os que podem ou deveriam ser abertos se beneficiam dos já trilhados. Auxiliado por Paul Tillich, ele resgata, em primeiro lugar, a dimensão escatológica do Reino de Deus, sem desmerecer a valorizada dimensão histórico-social. Em segundo lugar, pressupondo o enfoque dado à missão da Igreja a partir do Livro do Êxodo, afirma ter chegado o momento de também realçar a experiência sapiencial. E, finalmente, sintonizado com o atual debate teológico em torno do pluralismo religioso, problematiza o exclusivismo salvífico. Parcializar uma totalidade ou totalizar uma parcialidade é tornar-se prisioneiro das malhas da idolatria. Pois, o Deus verdadeiro é plenitude, não parcialidade idolátrica!

    Ultimamente, este debate em torno do pluralismo religioso ganhou certa evidência com a Nota da Congregação para a Doutrina da Fé sobre o livro do teólogo americano Roger Haight, “Jesus, símbolo de Deus”. No ambiente teológico e, principalmente, pastoral do Brasil e da América Latina, este debate e, particularmente, a obra do R. Haight ainda são pouco conhecidos. Movido, pois, pela supramencionada Notificação, Faustino Teixeira, embora não escondendo seu ponto de vista, coloca o leitor/a leitora a par do mérito deste debate teológico no mundo de hoje. Vale a pena conferir.

    Próximo desta temática navega o ecumenismo. Claudemiro Godoy do Nascimento e Klaus Paz de Albuquerque, relembram a senda aberta pela mentalidade ecumênica, reevocam perspectivas joaninas e, principalmente, evidenciam o exemplo das Irmãzinhas e dos Irmãozinhos que se inspiram em Charles de Foucauld e dos Irmãos da Comunidade de Taizé. São testemunhos de uma nova perspectiva no mundo religioso, do novo que redescobre o antigo.

    Em suma, sendo abrangente, a mudança de paradigmas culturais repercute também no ensino e na aprendizagem teológicos, provocando apatia, insegurança, crises etc. É uma questão de linguagem? Um sintoma de algo mais fundamental? Carlos Eduardo B. Calvani, embora referindo-se a seminários evangélicos, pinta o atual quadro do ensino teológico e aponta os meios ecumênicos e a vinculação com a comunidade eclesial como as melhores condições para favorecer ou despertar, hoje, a mordência da busca intelectual e vital da fé.

    Esta busca é recordada por Vital Corbellini ao sondar a convicção de Gregório de Nissa, um dos Pais da Igreja. Este, no esforço de entender e traduzir o mistério da encarnação para o mundo cultural grego, defende a divindade do Verbo e sua comunhão com o ser humano, tendo, para isso, como diz São João, “armado sua tenda entre nós”! É mais uma contribuição que estranha o exclusivismo, sob todos os pontos de vista, e consagra a profunda comunhão divino-humana em Jesus Cristo. Assim, o ser humano, embora caminhando na possibilidade da idolatria, pode viver a ventura da comunhão na totalidade da verdade e da vida.

    Por fim, de volta às CEBs, às vésperas do XI Encontro Nacional! O subtítulo que Jomar Ricardo da Silva dá a seu ensaio indica que também as CEBs não são mais as mesmas: embora velhas realidades sociais persistam ou até se agravem, novas abordagens vêm sendo feitas. O caminho se faz caminhando...

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • A paz não tem vez?
    v. 65 n. 257 (2005)

    Iniciamos este fascículo e, com ele, este novo ano, com um mergulho nas origens da violência com suas expressões simbólica e sagrada. A temática da violência ou da segurança ou da possibilidade da paz e da convivência é, sem dúvida, uma das grandes “insônias” dos dias de hoje. Luiz Carlos Susin nos orienta, com sua reflexão, neste mergulho, através do discurso da tradição bíblica e jesuânica, escolhendo textos fundantes, lidos na perspectiva de fabulações metafísicas e estórias que dão o que pensar (= mitos) e ensinamentos práticos. Jesus, o “novo Adão”, nos mostra que “o amor ao próximo e o amor ao inimigo são duas faces da uma mesma moeda”. Ele revela à humanidade a face de Deus, justo, fraterno, que se comove. Assim, mostra-se que a tragédia de Caim – “a marca do pecado que ainda trazemos em nossa fronte (...), nas defesas de uns contra os outros, na violência anti-fraterna, como medo uns dos outros, tentando controlar o caos com o aumento de poder sobre os outros” – pode ser superada. Trata-se de um caminho profético, de inclusão e respeito à diferença, não de exclusão e domínio.

    Qual “o significado profundo dos complexos e fascinantes mecanismos que comandam a vida”? Faz-se referência, aqui, ao progresso da biogenética e da biotecnologia, sem dúvida uma das fronteiras mais deslumbrantes da ciência atual. E o “significado”, segundo Antônio Moser, parece esconder-se em um “código” dotado de “misterioso poder criador”. Deste poder se encontrariam “sinais” no livro da natureza e no Livro dos livros, a Bíblia. Assim, a “chave” para decifrar o sentido da vida está em Jesus, o protótipo do “homem novo”, segundo a imagem e semelhança de Deus. A reflexão teológica pode, portanto, oferecer à ciência uma contribuição qualitativa e decisiva, acompanhando a evolução do conhecimento biogenético e de sua manipulação. Trata-se, pois, não de um divórcio, mas de uma parceria entre dados da fé e da ciência.

    Da ciência saltamos para o cenário sócio-cultural-religioso brasileiro da atualidade. Para compor este cenário Brenda Carranza elenca algumas manifestações. Estas manifestações revelam escolhas e modos de expressar valores básicos do viver humano, condicionados pelo conjunto dos fatores culturais do momento. A análise é interessante como processo de tomada de consciência e, portanto, de avaliação, necessário e característico da permanente busca da verdade e da relativização dos caminhos.

    Antônio Francisco Lelo evoca a mistagogia dos Padres da Igreja para introduzir os batizados na compreensão e participação da liturgia do povo de Deus. Este recurso trabalha a relação do cristão com a tradição bíblica a partir de linguagem simbólica, própria para elucidar o sentido sacramental vivido pelos cristãos. Assim, o evento sacramental é entendido como liturgia da vida e o cristão é convidado a viver o mistério celebrado. E a espiritualidade litúrgica apresenta-se como fonte e cume de toda a vida cristã no tempo da Igreja.

    Relacionados com a liturgia e, hoje, com o contexto histórico enquanto pluralisticamente religioso, embora em grande parte de âmbito cristão, estão os padrinhos de batismo. Antônio Silva fez um pormenorizado estudo da presença dos padrinhos no Direito Canônico, indicando, assim, seu sentido no decorrer dos tempos e na legislação atual e sugerindo linhas de orientação pastoral neste importante aspecto da corresponsabilidade entre os filhos de Deus.

    Do pluralismo religioso acima aludido passamos a uma articulação entre práxis e teoria (macro) ecumênicas, com Francisco de Aquino Júnior. Ele destaca que o pobre é o denominador comum que pode provocar a convergência das diferentes expressões religiosas, enfatizando o essencial e relativizando o acessório. Processo este que leva à convivência, articulando unidade e diversidade.

    A Redação da REB agradece aos articulistas e, na dinâmica de viver e pensar a fé em Jesus Cristo Salvador, deseja muitos frutos aos leitores.

    Elói Dionísio Piva ofm

    Redator

  • Matrimônios falidos: condescendência pastoral
    v. 64 n. 256 (2004)

    Há quarenta anos, os Padres do Concílio Ecumênico Vaticano II se utilizaram de uma feliz imagem para definir os que colocam sua esperança em Jesus Cristo: estes constituem um povo, um povo específico (de Deus); eles são Povo de Deus. É, pois, do amor gratuito e incondicional de Deus e da experiência vital desta boa-nova que este povo recebe sua permanente vitalidade. E esta graça e experiência vital se traduzem, por sua vez e sociologicamente falando, em forma de organização. Vigoram, pois e simultaneamente, o regime do carisma, da graça, da misericórdia e o da racionalidade organizativa, da instituição, das normas. Dada a óbvia necessidade de ambos para a condição humana, grande questão é a relação entre eles: estreita ela é, embora tudo se encaminhe, ideal e objetivamente falando, para a salvação, para a vida, para o bem da pessoa humana e, portanto, para a glória de Deus. Particularizando mais a questão: como lidar com a situação de pessoas que vivem em uniões canonicamente irregulares? Quais as razões e possibilidades da norma e da condescendência? Ivo Müller, com experiência de pastor e canonista, aborda esta espinhosa e esperançosa situação humana, dentro da conjuntura atual.

    De olho nos meios e nos modos mais adequados para cultivar e expressar a experiência religiosa nos dias de hoje, particularmente no Brasil, Celso Pinto Carias percorre o itinerário das CEBs, como alguém que nelas esteve e está integrado de maneira vigilante. É a partir desta posição que ele avalia a caminhada. Constata que, devido ao caráter ensaístico, as CEBs são passíveis de algumas observações críticas, bem como de receberem elogios pela contribuição eclesial que trouxeram. Conclui, portanto, afirmando a positividade da crise de amadurecimento e que, também por isso, as CEBs representam, na atualidade, uma alternativa privilegiada de evangelização.

    Se, por um lado, o cuidado pela evangelização chama a atenção para a atualidade sócio-eclesial das pessoas a quem esta se destina, por outro, ele sempre suscitou a busca de auxílio na experiência dos predecessores. Este cuidado se manifesta, agora, na evocação dos 40 anos da promulgação da Lumen Gentium. Assim, Boaventura Kloppenburg, revisitando, como perito conciliar, a mens dos autores da supracitada constituição dogmática do Vaticano II, realça seu caráter dogmático e pastoral. Por sua vez, Sinivaldo Silva Tavares e Eva Aparecida Rezende de Moraes recuperam a origem de algumas das mais fecundas intuições conciliares, evocando o pioneirismo de Johann-Adam Möhler e de Yves Marie-Joseph Congar ao tratarem, respectivamente, a temática da unidade e da pluralidade, do ecumenismo e da historicidade na Igreja. Fazendo isto, com maestria e unção, aqueles teólogos repropuseram a forma como a Igreja deveria se situar no mundo e anunciar a boa-nova de Jesus Cristo. Estes estudos, mesmo que situados em contextos culturais europeus, firmam chão teológico-espiritual para passos seguros e espírito evangelicamente arejado, também no nosso contexto sócio-cultural.

    De maneira semelhante, Paulo Suess, após 450 anos do colégio São Paulo de Piratininga, acompanha os primeiros passos da evangelização ali desenvolvida e, com os atores de lá e do restante do Brasil, aprecia as circunstâncias e o modo do anúncio de Cristo.

    Que a abordagem da vocação cristã sob diversos ângulos contribua para a edificação da identidade eclesial e para o anúncio da boa-nova da salvação às pessoas de hoje.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • A singularidade de Jesus
    v. 64 n. 255 (2004)

    A REB tem o prazer de abrir este fascículo com um ensaio que realça a singularidade de Jesus e de sua missão. Sinivaldo Silva Tavares consegue este resultado a partir de uma releitura dos testemunhos evangélicos em que qualifica o relacionamento de Jesus com as pessoas de seu tempo e, no seio da Trindade, com o Pai e com o Espírito Santo. Uma vez evidenciada, a própria singularidade sinaliza o surpreendente valor de Sua humanidade bem como o desconcertante paradoxo da pessoa humana. Ora, a humanidade de Jesus, pressupondo e partindo da plataforma do corpo enquanto possibilidade de relacionamento, articula o humano com o divino e o divino com o humano. Assim, o humano enquanto fragilidade e possibilidade de perversão remete para o drama de Sua paixão e morte e vice-versa; enquanto possibilidade de comunicação vital, remete para o encanto de Sua pessoa e missão. Portanto, vivendo nós hoje num contexto social marcado por brutal violência, que atinge o ser humano em seu corpo e em sua alma, a originalidade com que Jesus lida com as pessoas resgata a dignidade e a beleza original das mesmas: elas são sacramento do encontro entre o humano e o divino. O cuidado e o desvelo para com as necessidades físicas e sociais das pessoas, o carinho e a atenção a elas dispensados são distintivos dos seguidores de Jesus e fazem com que estes, quanto mais humanos, mais divinos se tornem, e quanto mais divinos, mais humanos!

    A singularidade de Jesus, assim como percebida por admiradores e seguidores seus, é levada ao cinema. Pois, uma vez que Sua pessoa encanta e interpela a todos, também a linguagem que a exprime não é monopólio de alguma pessoa particular, grupo ou instituição, mesmo que de caráter religioso. Assim, através do enredo e do dinamismo da imagem, também o diretor recupera, reinterpreta e atualiza, a partir de seu ponto de vista, a memória de Jesus. E esta interpretação – como muitas outras – funciona como ponto de partida ou proposta para a aproximação da verdade que Nele encanta, liberta e salva. Mas, como são diversas e diferentes as aproximações e os caminhos, Carlos Eduardo Brandão Calvani se propõe acompanhar os leitores numa visita às películas sobre Jesus, a começar pela de Mel Gibson – “A paixão de Cristo”.

    Da linguagem cinematográfica e das hermenêuticas ali transmitidas passamos à linguagem e à hermenêutica do livro bíblico do Apocalipse, onde o cordeiro imolado é figura-símbolo de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, chave para decifrar o sentido e o desfecho utopicamente feliz da história individual e coletiva dos que o seguem. É Isidoro Mazzarolo que percorre caminhos da exegese atual e retraduz a hermenêutica do Apocalipse para as pessoas de hoje.

    Assim, de expressão em expressão, passamos, agora, para a linguagem ritual-simbólica. Francisco Taborda convida os leitores a transitarem da celebração dos sacramentos da Igreja católica à teologia dos mesmos. Portanto, a linguagem simbólico-sacramental também desempenha a função de introduzir no mistério celebrado, remeter à dimensão eclesial e sócio-transformadora aqueles que, membros de Seu corpo eclesial e humano, também são convidados a construí-lo.

    Por sua vez, José Antônio de C.R. de Souza, acolhendo a oportunidade oferecida pela conjugação entre as próximas eleições municipais no Brasil e a popularidade de Santo Antônio, sintetiza a concepção ideal do Santo e da tradição cristã em relação ao poder público: instrumento a favor da justiça e da solidariedade humana. Uma mensagem sempre válida e oportuna!

    Para fechar o fascículo, José María Vigil sonda o amanhã. Especificamente, procura conjugarosfundamentosdavidaconsagradacomosrumosdaatualculturasócio-religiosa. Para isso, repropõe a categoria “reino de Deus” para, com seu potencial de humanidade e utopia, recentralizar a vida consagrada ou religiosa no que considera ser seu específico. Estas reflexões repensam e ilustram o mistério e a missão da Igreja!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Cristianismo na pós-modernidade
    v. 64 n. 254 (2004)

    Pode ser que Você, leitora ou leitor da REB, esteja muito bem informada/o sobre “pós-modernidade” ou até seja uma referência no assunto. Mesmo assim, a pergunta pelo que se entende por “pós-modernidade” está no ar, reforçada obviamente por quem só dispõe de algumas noções genéricas a respeito. E a expectativa abre suas pálpebras, quando se ensaia caracterizar a “pós-modernidade” e as arregala quando se indaga por suas conseqüências na esfera das expressões religiosas. Se esta não for uma mera impressão do Redator, porque esta curiosidade? Resultado da necessidade, do desejo e do esforço de as pessoas se situarem no mundo sócio-cultural em que se movem, ou seja, de tomar conhecimento e de interpretar os fenômenos que de alguma forma as atingem, particularmente os de ordem religiosa? Pois bem, se Você detecta ou experimenta algum mal-estar ou alguma inquietação em sua comunidade de fé, nas igrejas ou mesmo na sociedade ocidental como um todo, então, com certeza, o texto de Hubert Lepargneur sobre o cristianismo na pós-modernidade vai estimular ainda mais sua indagação, conduzi-la/o a discernimentos e estimulá-la/o ao diálogo entre fé e a cultura hegemônica atual!

    Se Você, de alguma forma, estiver ciente da atual valorização de soluções imediatas, do pragmatismo e do individualismo modernos e, portanto, também da busca de consolo e referências, então, certamente, também o/a visitará a pergunta pelo rumo da História humana. Haverá alguma causa e algum sentido para a evolução da vida ou dos fatos? A evolução social seria pendular, linear, circular? Veja, então, com o prof. Ivan A. Manoel, o que muitos pensadores católicos, entre 1800 e 1960, pensaram a respeito.

    Se Você tem dúvidas ou estiver segura/o de que o avanço da secularização resolveu politicamente e de vez o desafio da liberdade e da convivência na e com a diversidade religiosa, então veja o levantamento feito pelo prof. Ari Pedro Oro, particularmente em relação à situação do Brasil hoje.

    Pode surpreender, mas o olhar pós-moderno, abrangente, também matiza ou até caracteriza, mais ou menos conscientemente, a compreensão que se tem hoje da Eucaristia e influencia sua celebração. Veja o texto do Pe. Antônio Alves de Melo, que, como os outros articulistas, além de apontar fenômenos culturais, estabelece um diálogo entre as referências básicas da Tradição católica sobre o mistério eucarístico e alguns acentos culturais pós-modernos.

    Por fim, neste mesmo fascículo Você tem a oportunidade de embarcar na linguagem do simbólico ou do sacramental e aproximar-se das aspirações básicas da existência humana e cristã ao acompanhar o comentário do escritor e conferencista Antônio Mesquita Galvão sobre as Bodas de Caná – ocasião em que Jesus Cristo converte água em vinho.

    Que o material deste fascículo, em seu conjunto, possa servir à sua reflexão e prática!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Urgência ecumênica na AL
    v. 64 n. 253 (2004)

    Um aspecto atual e envolvente de nossa cultura, genericamente qualificada como neoliberal, realça o econômico e o individual. Como tal, atinge também o universo simbólico cristão, instrumentalizando seus símbolos para fins econômicos e políticos. Assim, deturpa-se o sentido da simbologia cristã e manipula-se a boa-fé de muitos cristãos latino-americanos, particularmente dos mais pobres. Mário de França Miranda, neste incisivo artigo, ajuda-nos a ter consciência, quem sabe mais clara, deste fenômeno e convoca as igrejas – sinais da salvação de Deus em Jesus Cristo – para uma revalorização da própria identidade e lhes faz o convite para uma ação ecumênica em prol da justiça e do compromisso com os marginalizados da sociedade.

    Ao apontar algumas características da espiritualidade missionária a partir da América Latina, José María Vigil matiza valores fundamentais da fé através da mediação da realidade sociocultural e religiosa de nosso Continente. Com isso, reforça a atuação ecumênica dos cristãos a fim de serem fermento na massa, ou seja, “lerem” e “avaliarem” as presentes circunstâncias histórico-culturais a partir do Evangelho e, conseqüentemente, serem evangelizadores através da defesa e do serviço aos mais desassistidos.

    Nosso ex-redator e ora bispo emérito de Novo Hamburgo, RS, Boaventura Kloppenburg, apresenta distinções entre a Liturgia “oficial” da Igreja católica e diversas formas de piedade popular. Ao fazer distinções, o Autor valoriza tanto uma como outra expressão, ressaltando, porém, o valor da piedade que poderíamos referir à atividade da “Igreja doméstica”.

    Já o conhecido e benemérito colaborador desta Revista, Hubert Lepargneur, lança um olhar sobre a atual fronteira da produção técnico-científica. Esta fronteira, particularmente no campo da biologia, apresenta não poucos questionamentos à fé cristã. Com isso, pensar ou repensar a relação “fé-ciência” constitui-se numa sentida necessidade, pois a instigação nos vem desta própria cultura ou, mais especificamente, do ser humano por ela construído.

    O Professor Massimo Grilli, dando continuidade ao texto “Evento comunicativo e interpretação de um texto bíblico”, já publicado na REB 63 (2003) 295-319, apresenta agora a aplicação do método a um texto específico: Mc 9,2-13 – a transfiguração de Jesus. Ele nos mostra como o Autor bíblico mesclou esquemas literários a serviço da comunicação da identidade de Jesus e do sentido de seu sofrimento, fazendo com que o leitor seja levado a entender que Deus também tem poder para transfigurar o caminho do sofrimento humano em caminho de ressurreição e vida.

    Com Sérgio Ricardo Coutinho, voltamos nossa atenção para a cultura política brasileira. O Autor afirma que as CEBs conjugaram e conjugam tradição e modernidade, ou seja: ajudaram a manter e a revalorizar a reciprocidade, tão presente em nosso convívio, e fruto, também e principalmente, de nossa tradição cristã, católica sobretudo, e a democracia, reconquistada e todavia ainda (e sempre) buscada.

    Por fim, José Wiliam Corrêa de Araújo aborda uma das percepções que, felizmente, vai ganhando terreno: a necessidade de se rever o lugar do ser humano no mundo, ou seja: ele propõe que este ser humano reavalie seu espírito predatório em relação a si mesmo e ao conjunto da criação. E isto, em primeiro lugar, por um motivo óbvio: a própria sobrevivência e uma melhor qualidade de vida; e, em segundo, em conseqüência do advento da percepção (e também do desejo) da dignidade de toda criatura.

    Queasreflexõesapresentadasestimulemequalifiquemaindamaisasiniciativasevangelizadoras a partir deste novo ano!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • ALCA: por uma negociação justa
    v. 63 n. 252 (2003)

    Avançam as negociações para o estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Independentemente do rumo que o acordo tomar, as incidências sobre as condições de vida da população serão significativas, se ele for firmado. Ora, também a Igreja Católica, cuja missão é viver e anunciar a Boa-Nova do amor misericordioso e justo de Deus que, em Jesus Cristo, une céu e terra, transcendência e imanência, não pode não levar em conta as condições do ser humano. Antes, ela se sente naturalmente na obrigação de contribuir, de alguma forma, também neste processo. Além de razões de princípio, no atual momento, preocupam-na o modo como estão sendo conduzidas as negociações, preocupa-a o desafio que a disparidade econômico-social dos países envolvidos representa, preocupa-a o acento quase exclusivo no aspecto econômico sem levar em conta a integração social, preocupa-a o precedente do TLCAN (Tratado de Livre Comércio da América do Norte). Em função desta consciência, neste fascículo, Juan Hernández Pico analisa a ALCA do ponto de vista ético e teológico, perguntando: as negociações estão levando em conta o aspecto humano na integração econômica? As vantagens serão solidariamente distribuídas? O direito dos mais pobres está sendo (e será) levado em consideração? Finalizando, e diante de graves distorções que até agora podem ser percebidas nas pouco transparentes negociações, ele convida a todos para que, de algum modo, contribuam para corrigi-las em tempo.

    Sinivaldo S. Tavares explicita alguns aspectos da inesgotável riqueza da celebração eucarística. A Igreja celebra a Ação de Graças com Cristo, entrando, por Ele e com Ele, em comunhão com Deus-Pai. A Eucaristia também funda a Comunidade eclesial, reforça e fundamenta, ética e teologicamente, seu compromisso social. Não há, pois, como celebrar a Eucaristia e ficar indiferente às questões econômico-sociais que nos dizem respeito, entre outras.

    A Igreja Católica no Brasil se propõe neste ano retomar a reflexão de sua vocação batismal – convite para o seguimento de Jesus Cristo no hoje de nossa história pessoal e social. Isidoro Mazzarolo, partindo do evangelista Marcos, aborda algumas das principais características deste seguimento e, em particular, o desafio que ele implica: assumir com amor e fidelidade o ônus decorrente.

    De certa maneira, quando dizemos, em termos atuais, que a evangelização é a razão de ser da Igreja, entendemos falar de sua vocação missionária. Vocação, porque todos participamos da missão de Deus que transborda na história em Jesus Cristo; missão, porque, como seus seguidores, somos impelidos a colaborar para a transformação do mundo, no sentido de que em tudo ele seja sempre mais de todos, integrado, humano, fraterno, portador da imagem e semelhança do Deus de Jesus Cristo. Paulo Suess e Carlos Eduardo Brandão Calvani, também em sentido de colaboração no diálogo intracristão, contribuem para uma rica articulação da missão de Deus – missão das igrejas, cristãs neste caso.

    Enfim, um olhar para um dos sinais mais promissores de nossos tempos: a evolução integrante e participativa da mulher em todos os âmbitos sociais, inclusive no eclesial. A abordagem de Olga Consuelo Vélez Caro tem como objetivo rastrear, no interior da Igreja Católica e através dos principais e mais recentes documentos pontifícios e do Vaticano II, esta evolução e estimular o engajamento de todos para que este reconhecimento e esta conquista de dignidade e participação continuem e se acelere.

    Às leitoras e leitores, a Redação deseja que as colaborações aqui apresentadas estimulem a interação entre prática pastoral e reflexão.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Diálogo inter-religioso a partir dos pobres
    v. 63 n. 251 (2003)

    Neste fascículo da REB evidenciamos mais uma vez o tema do “diálogo”, particularmente do diálogo inter-religioso. Talvez concordemos nisso: diálogo pressupõe escuta e partilha. Escuta pressupõe admiração. Partilha pressupõe identidade, generosidade e acolhida. Este tipo de postura, pessoal e/ou comunitária (eclesial), acontece na materialidade de todas as formas de vida. E materialidade – aqui também incluído todo cultivo do espírito (âmbito das culturas) – é chance e condição de transcendência. Transcendência é o termo para indicar a mobilidade de sentido. Sentido presente na materialidade do encontro e do diálogo, mas com ela não identificado. Sentido qual centro deslocado para fora da materialidade, para além, transcendente. E, no entanto, o carinhoso cuidado na relação com o cotidiano anuncia unção transcendente. Esta unção transcendente justifica relações pessoais e eclesiais dialogantes. A condição material sozinha é, porém, ambígua: pode ser chão de evento iluminado ou de evento pecaminoso, ou seja, injusto, chão de incluídos e excluídos, de vencedores e vencidos. Assim, repropor o diálogo inter-religioso a partir dos pobres é empreender o caminho da transcendência a partir da materialidade e da materialidade a partir da transcendência. É empreender o caminho do anúncio do Reino e da denúncia do anti Reino a partir de suas conseqüências. Neste sentido, confira as provocantes reflexões de Francisco de Aquino Júnior, a respeito do diálogo inter-religioso a partir dos pobres, e de Clauber Pereira Lima, a partir da explicitação da transcendência, como questão, em Sartre.

    Também Hubert Lepargneur, apresentando impactos eclesiológicos a partir do ponto de incidência “Filioque”, aponta impasses no caminho do diálogo inter-religioso. Estes impasses são alimentados por diferenças culturais, aqui muito bem colocadas, e pela dificuldade em relacionar materialidade, em sentido amplo, e transcendência nas relações de poder.

    O Pe., sociólogo e professor, Luiz Roberto Benedetti constata um dilema das Universidades Católicas. Este dilema parece afetar a identidade, qualificada tradicionalmente como “católica”. Conseqüentemente, a relação entre “pastoral” e “administração” parece ter amarelado. Como, pois, redescobrir e redimensionar “catolicidade” ou “pastoral” na administração de resultados? Ou, como redescobrir e redimensionar eficiência administrativa com a missão do “pastor” no meio universitário?

    Liturgia, ação viva do povo de Deus organizado: 400 anos depois de Trento e 40 anos após a Constituição Apostólica Sacrosanctum Concilium do Vaticano II! Dom Boaventura Kloppenburg, bispo emérito de Novo Hamburgo e ex-redator desta Revista, sintetiza, seja a natureza desta ação do povo de Deus, seja os eixos básicos que auxiliam uma liturgia permanentemente referida ao mistério de Jesus Cristo e ao povo celebrante.

    Uma contribuição também de muito interesse, pois ajuda a auto-avaliação: A historiadora e professora Solange Ramos de Andrade David analisa a abordagem que foi divulgada pela REB entre os anos de 1960 e 1980 a respeito das manifestações populares do catolicismo no Brasil. Qual teria sido, então e em termos gerais, a ótica em que foram vistas as referidas manifestações religiosas e, portanto, o que, mais ou menos conscientemente, se teria pretendido? Confira.

    A Você, querida leitora, caro leitor, uma proveitosa reflexão!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Leigos: Conferência Nacional?
    v. 63 n. 250 (2003)

    No momento em que ordeno as palavras e linhas deste Editorial, dada a magnitude e a repercussão da guerra, os promotores da Paz, bem como em geral a humanidade, vivemos uma derrota, segundo João Paulo II. Os esforços para resolução pacífica e “civilizada” das tensões da convivência humana deram lugar à lei do mais forte e os ouvidos selecionaram o som de acobertados interesses. E então impera a lei da selva, trágica, mesmo que seja por pouca duração de tempo. E nem nos limitemos ao atual conflito ou ao atentado de 11 de setembro de 2001. O mal é endêmico, mas só relativamente a seres racionais e de consciência ética! Ou seja, o deliberado ou ingênuo malfeitor não é inocente. É imperioso, pois, que se invoque humilde coragem para romper o círculo vicioso da violência que gera violência, em todas as suas formas, portanto, também na da exclusão cultural e social. Neste sentido, todo cristão é instado a ter consciência de que segue o Senhor da Vida, embora vítima da implacável lógica do ódio que gera mais ódio, violência e morte. É instado a romper o cruel e pecaminoso círculo da morte, embora a vitória seja promessa escatológica. A experimentar a bem-aventurança dos pacíficos, ou seja, dos que promovem a paz, pois “serão chamados filhos de Deus“. A seguir Aquele que se contrapôs ao mal, que entregou a vida em vez de tirá-la de outrem. Por isso, é “o Cordeiro sem mancha”, o “Sol da justiça”, o “Pão da

    Vida”, “o protótipo da nova criatura”.

    Para fazerem-se mais eficazmente promotores do bem, da justiça e da comunhão fraterna sugere Dom Aloísio Cardeal Lorscheider que os católicos leigos se articulem numa “Conferência Nacional dos Católicos Leigos”, à semelhança da CNBB ou da CRB.

    Dom Filippo Santoro, por ocasião (2003) do quadragésimo aniversário da Constituição Conciliar “Sacrosanctum Concilium” do Vaticano II, desejando qualificar a ação da Igreja no mundo, retoma e rediz conceitos que a definem como “sacramento”, ou seja, como portadora da autoconsciência de Povo de Deus que articula o visível e o invisível, o histórico e o transcendente, o humano e o divino.

    Embora sob outro ângulo, o litúrgico, José Ariovaldo da Silva, também na feliz memória dos 40 anos da “Sacrosanctum Concilium”, evoca o caminho da celebração do Mistério Pascal na e pela Igreja, particularmente no pós-Concílio e no Brasil. Não só isso: em relação ao Brasil, ele aponta causas histórico-culturais das dificuldades e da alavancagem da renovação litúrgica da Igreja no e pós-Vaticano II e indica desafios e esperanças para o futuro.

    O professor Massimo Grilli, que ajuda estudantes brasileiros em estudos bíblicos, traz à tona a importância do que ele chama de “evento comunicativo”. Quanto mais entendemos o fenômeno da comunicação humana, melhores condições teremos para interpretar textos bíblicos.

    O pensar teológico na América Latina é objeto de avaliação por parte de Cláudio de Oliveira Ribeiro. Instado pela pergunta: “morreu a TdL?”, leva adiante uma atitude que deveria ser permanente e presente em todos: a da avaliação crítica, ou seja, a de dar-se conta de contingências, limites e contribuições, respondendo a parafraseadas questões como estas: “Quem sou eu para vocês”? “Senhor, que queres que eu faça?”

    E o lugar da figura de Maria na espiritualidade e na práxis católica? Além da representação de cunho pessoal ou mesmo comunitário que dela se faz na Igreja, Clodovis Boff enfatiza a imagem social de Maria, apresentando uma mariologia sociolibertadora, não alienadora, mas tão profundamente arraigada na Tradição católica quanto outras representações marianas.

    Finalmente, para este fascículo, voltamos ao desafio do mal, evocado pela Tradição cristã sob muitos nomes e plásticas representações. A edição do De Exorcismis et Supplicantionibus quibusdam nos lembra, realisticamente, sua presença, seus limites e regulamenta a postura cristã diante dele. Muda a linguagem, não muda o significado: Dom Frei Boaventura Kloppenburg, bispo emérito de Novo Hamburgo, RS, e ex-Redator da REB, que o diga!

    Que a partilha de experiência de humanidade e de fé em JC torne a todos mais felizes!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Carência e Amor
    v. 63 n. 249 (2003)

    Temos a grata satisfação de ressaltar neste primeiro fascículo de 2003 a contribuição humana, eclesial e teológica feminina. Esta contribuição faz parte, diríamos, das mudanças socioculturais da sociedade humana, particularmente no Ocidente, já notadas e saudadas no início da década de 60 pelo saudoso Papa João XXIII. Ele citava a emergência social da mulher como um sinal dos tempos. Com efeito, a progressiva superação de marcas patriarcais, machistas, quiriárquicas, entre outras, aponta para perspectivas de esperança em todas as manifestações humanas, portanto, também na diversidade e originalidade da reflexão teológico-pastoral da Igreja Católica. Apresentamos, pois, com muito prazer, à consideração do/a leitor/a da REB o testemunho e a reflexão de Hadwig Ana Maria Müller. Alemã, optou por fazer, temporariamente, uma experiência eclesial em contextos socioculturais de periferia urbana e de regiões do interior brasileiros. Com aguçada observação e afinado “ouvido”, concomitantemente a carências e expropriações constatadas entre os pobres, registra tocante riqueza no relacionamento humano-eclesial. Auxiliada pelos estudos de Lacan a respeito da falta (no sentido de carência, ausência de) ela constata, também a nível teológico, que a pessoa que ama silencia, ouve e se deixa tocar e movimentar tanto pela carência alheia quanto pela própria. Assim é que o estado de carência, em todos os níveis – portanto, também a fome e sede de Deus –, bate à porta do amor que, por sua vez já tendo-se adiantado, reverente, a visita. Esta situação de fundo ou esta compreensão antropológica dinamiza as relações humanas e confere à Igreja sentido de comunhão trinitária e inspiração ministerial.

    Maria Clara L. Bingemer, em outro nível que não o das relações vitais imediatas, traçaumpanoramadaatualsituaçãodamulhernaIgrejaCatólica.Partindodasperspectivasdelineadas pelo Concílio Vaticano II e percorrendo pronunciamentos eclesiais posteriores, traça uma linha evolutiva, assinala alguns pontos do atual debate envolvendo questões de gênero, bem como o rico aporte teológico-pastoral trazido pelas mulheres na atualidade.

    Luiz da Rosa, tendo por base a análise de passagens bíblicas, os últimos estudos arqueológico-bíblicos e a produção literária extrabíblica no antigo Oriente Médio, percorre a evolução do povo da Antiga Aliança rumo ao monoteísmo. Esta evolução aconteceu em circunstâncias históricas específicas e, como se trata de um contínuo caminhar humano, também nos diz respeito.

    A idade e, sobretudo, a experiência pessoal provocada pela doença e por situações-limite levaram o ex - e benemérito redator da REB, Boaventura Kloppenburg, a partilhar suas considerações teológicas a respeito da velhice. Partilha oportuna, tanto em relação à Campanha da Fraternidade deste ano, centrada na relação Fraternidade-Idosos, como também em relação à natural fase da vida de muitos leitores da REB ou em relação a pessoas idosas com quem nos relacionamos ou que encontramos em atividades pastorais.

    Adriano Sella se faz sentinela da relação entre Evangelização e dimensão sociotransformadora. Esta dimensão – recorda –é constitutiva da Evangelização, não opcional. Assim, ou o anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo, por palavras e atividades, pressupõe eleva à transformação social, no sentido dos valores do Reino, ou não é anúncio de Jesus Cristo!

    A permanente necessidade de, na prática pastoral, estar atentos à transformação sociocultural urbana é percebida e tematizada por Celso Pinto Carias. Com efeito, o anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo deve estar sempre dialogicamente sintonizado tanto com o jeito ou sensibilidade cultural de quem anuncia como de quem ouve.

    Hubert Lepargneur afirma que a maior consciência e sensibilidade da sociedade atual por situações de risco ainda não recebeu a correspondente atenção da Teologia Moral. Uma vez que em toda situação de risco se desenha uma dimensão ética, sua indagação representa relevante aporte para o desenvolvimento de orientações ético-morais adequadas.

    Que a reflexão a partir da fé em Jesus Cristo, a partir e sobre modalidades e desafios do contexto sociocultural e eclesial da atualidade, potencialize e qualifique a evangelização.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • O Cristo de Paulo
    v. 62 n. 248 (2002)

    A Redação da REB tem a satisfação de partilhar com os leitores da revista a singela homenagem que presta a um de seus colaboradores e membros do Conselho Editorial: Frei Simão Voigt, ofm, falecido aos 24 de julho passado, após cerca de 5 meses do diagnóstico de um tumor maligno no cérebro. Por mais de 30 anos Frei Simão condividiu no ITF o que ele mesmo apreendera e vinha apreendendo em torno das Sagradas Escrituras. Entre as características que em todos deixa saudades não temos dúvida em assinalar: a simplicidade de seu estilo de vida, o rigor na busca intelectual da verdade (deixou quase pronto um livro sobre “leituras”, abordagens ou interpretações bíblicas) e a serenidade com que se colocava em relação a posições ideológicas ou novas hipóteses. Por tudo isto, mas sobretudo pela paixão que demonstrava pelos estudos bíblicos e pelo juvenil entusiasmo com que compartilhava hipóteses ou descobertas na sabedoria de seus 76 anos de vida, a REB lhe presta a singela homenagem de editar a elaboração de um dos muitos projetos que acalentava: Paulo, cristólogo das origens cristãs. Este fora o texto da conferência por ele proferida na Semana Teológico-Pastoral, promovida pela PUC-Rio e pelo ITF-Petrópolis, em outubro de 2001. Agradecemos ao Pe. Mário de França Miranda, SJ – PUC-Rio a pronta liberação do texto, publicado, juntamente com as outras participações desta Semana, pelas Edições Loyola, com o título: A pessoa e a mensagem de Jesus (2002).

    Em seguida, este fascículo é enriquecido pela reflexão teológica de Sinivaldo Silva Tavares, sintetizando o percurso da recente reflexão teológica cristã, que, provocada e inspirada pelo Mistério do Verbo Encarnado, se debruçou sobre a relação entre história e fé. O texto complementa a outra abordagem, já editada (cf. REB 62 (2002) 5-27).

    A riqueza do material deste fascículo prossegue com abordagens de cunho pastoral, sociológico, ético e psicológico. Em primeiro lugar, José Trasferetti, a partir de uma pesquisa-amostra realizada em três paróquias de Campinas/SP, prospecta atuação e postura para a Pastoral Familiar: superar tabus e abordar com competência e serenidade as implicações decorrentes da AIDS, particularmente dos soro-positivos.

    Ari Pedro Oro apresenta o resultado de uma pesquisa entre universitários de duas instituições de ensino de Porto Alegre. Traz à tona a relação entre manifestações religiosas e modernidade/pós-modernidade, particularmente no mundo estudantil da atualidade.

    Neiva Furlin se aproxima do fenômeno religioso manifestado na e pela IURD, particularmente nas reuniões do “descarrego”, procurando sondar seus pressupostos ou fundamentos de caráter antropológico: fé, a experiência da cura e, nela, da libertação.

    Hubert Lepargneur nos convida para uma reflexão bioética. Em pauta: a eugenia e a clonagem terapêutica. Crônica de novas possibilidades e questões, discussões, dúvidas e perspectivas são ingredientes do debate.

    Enfim, Marcelo Conceição Araújo aborda a delicada temática do desenvolvimento afetivo na formação inicial ministrada nos seminários e casas de formação religiosa. Esta temática, enfatiza o Autor, precisa ser abordada em profundidade e com serenidade, buscando-se clareza de discernimento, coragem e objetividade em sua abordagem.

    Que este espaço de partilha teológico-pastoral possa incentivar e qualificar a ação eclesial.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Igreja: desafios inusitados
    v. 62 n. 247 (2002)

    Ultimamente a Igreja católica tem sido objeto de reiteradas matérias, divulgadas através de meios de comunicação escrita, falada e televisiva. O motivo de os holofotes se terem voltado para ela foram os mais ou menos recentes casos de pedofilia envolvendo alguns de seus membros. Evidentemente não se trata de uma questão exclusiva da Igreja católica nem de nossos dias. Contudo, a maior consciência de direitos sociais no mundo atual, entre outros, ajudou a chamar a atenção sobre a questão. Além de apontar para mazelas ou fraquezas de membros da hierarquia católica, as abordagens apontam para o direito de reparação das vítimas e questionam o modo de proceder da Igreja católica em relação aos infratores. No intuito de contribuir no discernimento da problemática, a REB traz neste fascículo uma colaboração de Antônio Moser. Como ele mesmo afirma no título, trata-se de primeiras impressões e interpelações, sinalizando que o assunto demanda mais estudo e renderá mais considerações. Mas, nesta altura, já é possível levantar circunstâncias de contexto social em que o fenômeno acontece, dar-se conta da questão, ou seja, olhá-la de frente, precavidos de sensacionalismos interesseiros e pouco caridosos, bem como reavaliar linhas de formação nos seminários, realçando a necessidade de uma formação para o amor.

    Invariavelmente uma educação para o amor leva aos caminhos de Deus. E estes, manifestados em Jesus Cristo, conduzem à generosa doação da vida a serviço dos irmãos e de toda criatura. Levam a assumir serviços. Francisco Taborda retoma a tradição dos ministérios ordenados, na Igreja católica: o ministério dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos. Evoca seu sentido e percorre o caminho de sua instauração. Deste percurso ressalta a evidência da necessidade e importância destes serviços. Particularmente, poderíamos destacar, para nossos dias, o do diaconato. Quando a CNBB convida a Igreja no Brasil a contribuir mais ainda no combate à fome e à miséria no país, o ministério do diaconato retoma e pode revigorar a consciência e a ação da Igreja em favor dos pobres e excluídos de elementares condições de vida digna. Encontrar maneiras de reforçar o serviço de diáconos na promoção social significa, em última análise, testemunhar uma educação e uma vivência de amor e expressar fidelidade ao Deus de Jesus Cristo, Deus-Amor.

    O exercício de ministérios acontece, capilarmente, em comunidades e, aqui, fazemos menção às CEBs. Neste particular, Jomar Ricardo da Silva destaca a interação entre agentes de pastoral e animadores, identificando o contínuo desafio de se ter consciência de que nestas inter-relações há uma questão de poder e de que este precisa sempre ser questionado, na Igreja – evidentemente também nas CEBs – sobre seu sentido e seu exercício, a fim de que esteja a serviço da comunidade.

    Enfim, duas análises de caráter reflexivo: uma, de Jacques Hilaire Vervier, sobre e a partir da relação entre economia de mercado e ética nas últimas quatro décadas no Brasil e outra, de Luiz Roberto Benedetti, sobre e a partir de expressões do catolicismo no atual pontificado. A primeira, embora restrita ao Brasil, também aponta para potencialidades e limites da economia de mercado; a segunda, embora mais centrada na análise do atual pontificado, envolve potencialidades e limites da auto-representação do catolicismo atual e de sua forma de interagir com o mundo de hoje. A primeira acena para o horizonte utópico da renda mínima, incondicional e independente do trabalho; a segunda, com uma dialética sintonia entre mensagem cristã e cultura moderna.

    Que a interação possibilitada pelas considerações acima apresentadas possa fortalecer e qualificar a todos, em seu caminhar de fé.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Presbíteros e cargos políticos
    v. 62 n. 246 (2002)

    Por ocasião da transmissão de governo e dentro do processo democrático, a proximidade de mais um turno eleitoral para cargos públicos nos oferece oportunidade para refletir sobre a função específica do presbítero. Isto porque, sendo cidadãos de plenos direitos e deveres, vários padres se candidatam para concorrer a funções públicas, dentro do sistema partidário. O assunto merece nossa atenção, pois nos pode ajudar no discernimento do papel político do presbítero ou do padre. Embora a porta para o exercício de funções civis permaneça aberta, há também uma função própria ou específica do presbítero – uma função que é sobretudo uma vocação. O assunto não é de fácil resolução e, por isso, o Pe. José Lisboa Moreira de Oliveira se propõe a estimular os leitores na busca de critérios tanto para se concorrer a cargos públicos, como para se ter presente o que é próprio e peculiar do presbítero.

    Dom Aloísio Lorscheider também toca um tema de muito interesse, particularmente para o clero: seu perfil espiritual e pastoral. Ele desenvolve uma abordagem amparada num lastro tradicional, e uma outra decorrente da eclesiologia do Vaticano II e das conferências gerais do episcopado latino-americano. Ele nos propõe o perfil do padre que, a partir de sua fé, se projeta para dentro da vida e da sociedade humana. Este perfil está relacionado à própria razão de ser da Igreja: congregada por Cristo, por ele é também enviada a testemunhar ao mundo o Evangelho do Pai. Além disso, a temática nos coloca em sintonia com as conclusões do 9o Encontro Nacional de Presbíteros, cuja mensagem final pode ser encontrada na seção de Comunicados.

    Jesus Cristo, personificação da Boa-Nova, é também para todos o modelo de fidelidade ao Pai. O Pe. José Otacílio Leite nos apresenta uma provocadora reflexão, partindo das tentações de Jesus. Dimensiona-as ao conjunto do percurso humano de sua vida e estabelece algumas pontes para nosso atual contexto cultural, marcado pelo neoliberalismo e pela pós-modernidade.

    O tema da “terra sem males”, que nos orientou, durante a quaresma deste ano (CF 2002), para uma vivência pascal, nos remeteu também à busca de justiça em favor de nossos irmãos indígenas. Crentes de que esta justiça não irá longe se não nos dispusermos a conhecê-los e a valorizá-los, a Dra. Graciela Chamorro nos apresenta um estudo sobre a soteriologia guarani, onde se pode perceber e admirar como sua antropologia e teologia da Palavra estão próximas da concepção cristã ou vice-versa.

    Por fim, o Prof. José Antônio de Camargo Rodrigues de Souza, que há pouco defendeu tese sobre o pensamento social de Santo Antônio (cf. REB 61 (2001) 741-743) nos orienta na compreensão deste expoente da religiosidade popular, discorrendo sobre seu papel na consolidação do movimento franciscano e sobre sua atuação, em sintonia com a Igreja e a sociedade de seu tempo.

    A todos, desejamos proveitosa leitura e reflexão.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Jesus Cristo ontem e hoje
    v. 62 n. 245 (2002)

    No fluir do tempo e no peregrinar da história dispomos da referência fundante e orientadora de Jesus Cristo. A graça de sua luz nos ilumina e nos estimula na busca da nova criatura, de quem ele mesmo é o protótipo. Mas esta luz e este estímulo, a partir da experiência humana, se apresentam também como pergunta, cujas dimensões se abrem para além das representações que nos fazemos de Seu mistério. "Quem és Tu?" é pergunta que provém da percepção do divino, mas também pode se tornar uma provocação destinada a fazer com que a pessoa se dê conta dos limites de suas representações cristológicas. Buscando articular uma resposta, Sinivaldo Silva Tavares procurou resgatar as atitudes e a mensagem do Jesus histórico, testemunhadas pelos primeiros cristãos e codificadas nas redações do Evangelho do mesmo Jesus, o Cristo. Confrontou esta referência básica com algumas das atuais expressões e o resultado pode se apresentar como um desafio para muitas comunidades eclesiais na atualidade, particularmente em relação a representações em torno do "retorno ao sagrado", do "movimento pentecostal" e do "diálogo inter-religioso". Deste confronto decorre a pertinente relevância do referencial da Tradição cristã para a vida eclesial em diálogo com alguns aspectos da cultura religiosa moderna.

    Que a reflexão teológica possa proferir uma palavra significativa para cristãos e católicos no atual contexto social latino-americano! E a intuição que Olga Consuelo Vélez Caro procura organizar racionalmente em seu texto sobre o Deus da Vida e alguns desafios atuais na América Latina.

    António Mesquita Galvão faz uma reflexão a partir do confronto entre a parábola do rico insensível/do pobre Lázaro e o crônico desafio de toda a humanidade expressar maior justiça na produção e na distribuição de bens concernentes ao bem-estar físico e espiritual de todos.

    A teologia, como acolhida de desafios sociais e como tentativa de resposta teo-lógica, pode contribuir na formação de universitários? João Luiz Correia Júnior nos mostra a im portância que ela pode desempenhar num momento, acrescentamos, em que a Teologia é reconhecida pelo Ministério da Educação e Cultura.

    Michel Deneken, de Strasbourg/França, nos apresenta uma instigante e oportuna reflexão em torno da relação entre o magistério católico e a reflexão teológica. Ele argumenta no sentido de se passar, sem hesitação, da suspeita recíproca para a mútua vigilância, pois, na Igreja, todos somos ouvintes e servidores da Verdade que, em Jesus Cristo, se fez servidora.

    Por sua vez, movendo-se em área próxima, Paulo Fernando Carneiro de Andrade dá um apanhado do atual debate em torno das Conferências Episcopais, ressaltando sua fundamentação teológica, seu múnus ministerial e a pertinência do princípio de subsidiariedade na Igreja.

    Por fim, uma saudosa lembrança: a atuação de Dom Helder Câmara, apresentada por Severino Vicente da Silva: Dom Helder, sopro evangélico num tempo e num espaço socioeclesial bem determinados: 1964-1985 († 1999) – Arquidiocese de Olinda e Recife. Confira!

    Nota: No intuito de alcançar a maioria dos leitores antes da "dispersão" de final/início de ano e logo após a "retomada" das atividades pelo final de fevereiro, a REB altera seu calendário: em lugar de se apresentar em março, junho, setembro e dezembro, passará a fazê-lo em janeiro, abril, julho e outubro.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Unidade cristã no Brasil
    v. 61 n. 244 (2001)

    Encerrados os rituais que sinalizavam o início de um novo milênio da era cristã, rituais abundantemente regados com a esperança e o desejo dos mais belos sonhos em relação ao futuro, reconquistam seu habitual espaço os mais variados paradoxos da vida humana. Assim, o luminoso e o trágico voltam a se confundir e a se alternar. Aos desejos e votos de vida e paz, juntaram-se, de maneira dramática, o pecado e a morte. O Justo e o Santo parecem ser espécimes raros. Causas da injustiça e da morte são realimentadas: ambições, prepotências, preconceitos, cegueiras fazem parte do complexo vitaminoso que as fortalece.A paixão do Filho de Deus é reeditada nas inúmeras formas de injustiça, sofrimento e morte. É a ausência e a negação de amor.

    Porém, seguidores d’Aquele que, por sua morte e ressurreição, nos reconciliou com Deus, somos vocacionados a reeditar continuamente a Boa-Nova da Vida, do Amor, da Justiça e da Paz. Profetas da não-violência. Elaboradores ou reelaboradores do mais belo sonho humano e divino: a comunhão com Deus – Dom e fruto dos bem-aventurados.

    Se, com pesar, nos damos conta de que criamos exclusões no próprio universo cristão, com grata satisfação geramos caminhos de comunhão. Acompanhamos a evolução e a definição destes caminhos no Brasil com Elias Wolff, na esperança de que também se direcionem  para além das fronteiras da identidade cristã!

    A celebração eucarística, memória atualizante da morte e ressurreição do Senhor, colocando-nos nos caminhos da experiência santamente solidária e amorosa de Deus, só pode nos fortalecer na construção (topia) da utopia do Reino de Deus. Apreciamos a centralidade deste mistério para o sentido do ser humano com Maria Clara Lucchetti Bingemer.

    Somos chamados a dar as razões de nossa fé e a levar o fermento do Evangelho na policêntrica, conflitiva e dinâmica realidade urbana. De que modo, porém, e com quais acentos?  Podemos conferir esta busca de modelos eclesiais com Pedro Carlos Cipolini.

    Enfim, neste fascículo, através da sabedoria humana e cristã, explicitada por Paulo Suess, somos convocados a levantar a cabeça, percebendo e analisando os contraditórios sinais de nossa cultura, adaptando e revigorando as razões da esperança cristã e humana – na expressão guarani – de uma “Terra sem Mal”: Uma utopia que não só pode, mas deve – em virtude de imperativos humanos e religiosos – tornar-se sinal histórico do Futuro de Deus.

    Nosso tempo é propício à reflexão, porque forte é o apelo para a corresponsabilidade na construção do bem.

     

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Migrações internacionais
    v. 61 n. 243 (2001)

    Juntamente com incontestáveis sucessos científico-tecnológicos e melhorias na qualidade de vida para milhões de pessoas, o atual processo de globalização também traz o germe de uma nova questão social. Mutatis mutandis, a relação entre ciência, capital, tecnologia, justiça social e a Primeira Revolução Industrial pode ser feita agora com a globalização. A concentração do domínio tecnológico, do capital, dos meios de produção e dos decorrentes dividendos, em escala quase mundial, também coloca milhões de pessoas na dependência e na miséria. A maravilhosa criatividade da inteligência humana em descobrir segredos da vida ainda não está conseguindo repartir as descobertas e seus dividendos de uma maneira mais idealmente eqüitativa. Portanto, o desafio e a possibilidade de a consciência humana, cristã e católica ajudar a globalizar a solidariedade e a revigorar as esperanças no futuro terrestre da humanidade se reapresentam.

    As migrações internacionais, mais ou menos forçadas, são um sub-produto desta nova questão social. Em função disso, Rosita Milesi, Margherita Bonassi e Maria Luiza Shimano, além de nos reapresentar o atual fenômeno migratório internacional, nos indicam entidades confessionais que atuam com migrantes brasileiros no exterior e com não-brasileiros no Brasil. Apresentando-nos o fenômeno e seus principais desafios, chamam a atenção para uma das atuais preocupações e ocupações de entidades confessionais e, por elas, de todas as igrejas.

    As vésperas de um sínodo de bispos, que tratará da missão dos próprios bispos na Igreja católica, Bárbara Pataro Bucker aborda algumas representações de "Igreja". Embora claudicantes, elas nos ajudam, cada uma a seu modo, a entender o mistério da Igreja, sua missão no mundo e, portanto, também a dos bispos, Aqui, a Autora acentua a imagem de "Esposa de Cristo", contemplando assim a importância da presença feminina e sua emergência em nossos tempos.

    Frei Bernardino Leers, abordando aspectos do catolicismo popular brasileiro, defende a seguinte tese: sua expressão dolente não é somente resultado da vida sofrida da maior parte de nosso povo; é também uma herança jansenista. E, comparando algumas caracteristicas desta herança com a atuação de Jesus de Nazaré, chega à conclusão de que não há como não contestá-la.

    O diálogo intercultural é uma platafonna viável para o entendimento humano. a construção da paz e da justiça, segundo Paulo Suess. Inspirando-se em Nicolau de Cusa e em Mestre Eckhart, ele afirma que a articulada concomitância de semelhanças e diferenças culturais aponta para o encanto e o desencanto da história humana, indicação da parcialidade e da plenitude de cada cultura.

    Enfim, Nilo Agostini nos ajuda a tomar consciência da relação entre manipulação do genoma humano e questões éticas. Os avanços da capacidade de manipulação biológica, particularmente no que se refere à biologia humana, abrem novas perspectivas, que tanto podem se revelar perversas como promotoras da vida. Por isso, a responsabilidade do ser humano diante de si mesmo e da vida aumentou. Mais decisiva é e será sua postura ética.

    Elói Dionisio Piva, ofm

    Redator
  • Diálogo inter-religioso
    v. 61 n. 242 (2001)

    Graças ao potencial técnico-científico, o ser humano, social e dialogante, depara-se hoje, ao menos em tese, com um novo mundo. Um mundo de possibilidades que acenam para a riqueza da troca de bens, para uma melhor compreensão da própria identidade, para um diálogo plenificante. Um mundo também de desafios, dada a mais intensa interpelação vinda de outras culturas da vida e da salvação diferentes da nossa. Desafios que, para se tornarem chance de um mundo novo e melhor, requerem respeito e reconhecimento da verdade do outro. Nesta condição, eles se tornariam uma bênção, pois levariam a repensar o sentido da vida, a revelação de Deus, o sentido da salvação em Jesus Cristo. É neste contexto de multiplicada interação humano-religiosa que Agenor Brighenti aceita o desafio, posto pela Declaração Dominus lesus. Tece considemçöes de ordem teológica que predispõem ao diálogo e à busca da Verdade. Articula uma postura de obediência e co-responsabilidade criativas, na renovada tentativa de reconjugar o livro da vida com o da revelação dc Jesus Cristo. Este sincero e esperançoso empenho poderá ungir a prática da convivência humana, caracterizando o ser Igreja neste novo milênio.

    Respondendo, justamente, ao desafio de ser Igreja nas circunstâncias sócio-culturais do novo milênio, a CNBB colocou à disposição das comunidades eclesiais um documento de incentivo e orientação: Ser Igreja no Novo Milénio. Este documento sintoniza com as orientações pastorais de toda Igreja, expressas na Carta Apostólica de João Paulo II: Novo Millennio Ineunte. Confira, na condução de Manoel Godoy, o perfil eclesiológico e a consciência de testemunho evangélico ali veiculados!

    Por sua vez, Mário de França Miranda retoma a reflexão sobre a Igreja e sua missão evangelizadora no mundo de hoje, chamando a atenção para a importância da Igreja Local no processo de inculturação das expressões da fé. Conseqüentemente, sugere uma catolicidade dinâmica na diversidade cultural do Brasil.

    Já faz 30 anos que Paulo VI lançou a Carta Apostólica Octogesima Adveniens. retomando e relançando a postura social da I greja nos tempos modemos. Muitas circunstâncias sociais de então já mudaram e continuam mudando, mas António Aparecido Alves tem o mérito de traçar o desafio que sempre acompanha o agir social: o desafio proveniente da relação deste agir com ideologias e utopias. Em que sentido, pois, "ideologia" e "utopia" se fazem presentes na açäo social da Igreja e o que podemos aprender com isso?

    Concluindo a apresentação dos 50 anos de JUC no Brasil, Luiz Gonzaga de Sena recorda e aponta a experiência de vida cristã, feita pessoalmente nesta caminhada. A espiritualidade da JUC levou seus membros para uma atuação ad extra, em sociedade e na sociedade; influiu tanto na fonnação pessoal de seus membros, como na transformação social. rumo ao homem novo. A conjugação dos verbos no tempo presente, não seria uma meta também para hoje?

    Enfim, neste fascículo, Nilo Agostini renete sobre a contribuição que a teologia moral pode oferecer à criação cultural. A pergunta que conduz a reflexão pode ser assim formulada: Qual a relação entre o instituído e a "construção" ética? Segundo o Autor, o teólogo moral contribui para afinar o ouvido à inspiração ética na mobilidade e no encontro sócio-cultural de hoje.

    Conjugando Anúncio e situação sócio-cultural, que estas reflexões ajudem a todos!

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator
  • Pluralismo e Teologia
    v. 61 n. 241 (2001)

    Uma das expressões utilizadas no último Concílio ecuménico da Igreja Católica e que teve perceptível ressonância foi “sinais dos tempos”. A percepçào subjacente é a de que Deus sinaliza sua presença a partir da história humana. A percepção de fenômenos meteo­rológicos ou sócio-culturais como sinais pode servir de analogia para a manifestação e a descoberta do kairós de Deus (cf. Mt 16,1-4). Portanto, para quem descobre o jeito de Deus, urge situar-se na evolução histórica. Daí que muitas pessoas identificam hoje Seus apelos na pluralidade do mundo, pluralidade que é gerada a partir da admirável criatividade huma­na e que é partilhada a partir da engenhosidade comunicativa desta mesma criatividade. Ora, isto nos remete, por um lado, ao momento sócio-cultural em que vivemos e, por outro, à eterna busca e ao eterno reconhecimento da Verdade, segredo de fecundidade apostólica.

    Este fascículo da REB traz subsídios para esta caminhada:

    Agenor Brighenti nos diz que a pluralidade sócio-religioso-cultural nos oferece a oportunidade de recolocar perguntas básicas e até óbvias, como: o que é teologia? Que sen­tido tem repensar a fé em Jesus Cristo? Que discernimento ela nos pode trazer para a missão evangelizadora num mundo plural? Como situar-nos diante do pluralismo cultural e religi­oso? Quando, onde e como pode acontecer o encontro entre o humano e o divino? Como a reflexão a partir e sobre a fé em Jesus Cristo ajudou as pessoas a reconhecer a vontade de Deus em outras situações históricas? Pois bem, é à base destas e de outras perguntas que Você é convidado/a a “viajar”.

    Jorge Atilio Silva lulianelli tem a feliz intuição e arte de nos conduzir, através dos ver­sos do poeta recentemente falecido Mário Quintana, à surpreendente percepção da presen­ça divina no cotidiano da vida. Confira: o bom licor é doce!

    Inserido na porção do Povo de Deus denominada Igreja particular ou diocesana, o pa­dre secular, caminhando na presença de Deus, em comunhão com a Igreja e seus pastores, tem a bela missão de criar comunhão com Deus e com Seu povo. Confira a palavra sábia, experiente e zelosa do Cardeal e pastor Dom Aloisio Lorscheider. Ele transita pela estrutu­ração da Igreja, mas não pára ali seu ponto de partida e de chegada.

    Quantos não temos hoje, mais ou menos conscientemente, uma mentalidade empresa­rial, com acento na objetividade, no planejamento, na boa administração etc.? Mas o não-racional, o imprevisível, os valores como a solidariedade, a liberdade, a ternura, a gra­tuidade também não deixam de se constituir num permanente apelo a cada pessoa. Provi­dência Divina - o que é isto? Portanto, se tudo isto faz parte de nosso quadro sócio-cultural, como é possível acontecer frutuosa relação entres estes valores aparentemente díspares? Confira com Luiz Carlos Susin.

    Por sua vez, Zildo Barbosa Rocha, no quadro de relações intra-eclesiais e inter-religio- sas, nos situa no evolutivo panorama da compreensão da revelação de Deus e no desafio da convivência plural, ecuménica. Tanto a beleza como o desafio de uma convivência ideal continuam a nos interpelar.

    Luiz Gonzaga de Sena, prosseguindo na apresentação da JUC, nos relata a experiência feita acerca do modo cristão de viver em comunidade. Sempre uma luz também para nós.

    Finalmente, Sinivaldo Silva Tavares nos apresenta, numa vigorosa síntese, um dos pontos altos da reflexão teológica cristã e da Escola Franciscana, através de Duns Escoto: Qual a compreensão conseguida acerca do mistério de Jesus Cristo e, portanto, que lugar Lhe foi reconhecido na história do mundo, na história da salvação, na antropologia cristã? Uma significativa contribuição no atual debate sobre a unicidade e universalidade de Jesus Cristo!

    Elói Dionisio Piva, ofm

    Redator
  • Tradição viva
    v. 60 n. 240 (2000)

    Normalmente toda pessoa, enquanto integrante de uma família, é estimulada a receber, reinterpretar e retransmitir com carinho a herança de seus Pais. Enquanto membro de alguma instituição, a herança dos Fundadores. Enquanto membro da Igreja Católica, a dos Pais e das Mães na fé. E se isto se dá individualmente, o mesmo acontece em relação à Igreja, enquanto Povo de Deus ou como um todo: como tal ela é convidada a acolher, reinterpretar e retransmi­tir com carinho seu próprio património espiritual. Mais: este é um convite que se apresentou e que também pode se apresentar em forma de interpelação à sua própria identidade. E como tem sido, assim ele pode também se oferecer como oportunidade em que a herança dos Pais e das Mães se revele como referência fundamental de autocompreensão e, portanto, de pos­sibilidade de diálogo.

    Hoje, nas atuais circunstâncias culturais e religiosas, a Igreja volta a ser interpelada, de uma maneira mais incisiva do que em outros momentos, a respeito de si mesma, ou seja, a respeito de sua identidade. Por isso, sente-se provocada a re-articular sua autoconsciência, assim como o fez, a seu tempo, no Vaticano II, exprimindo o resultado na Constituição Dogmática Lumen Geníium. São circunstâncias como estas que a convidam a reinterpretar, de maneira nova e criativa, o testemunho dos Pais e das Mães na fé, ou seja, o rico patrimó­nio espiritual e cultural da experiência de seguimento de Jesus Cristo que vem sendo legado de geração em geração e que denominamos “Tradição viva da Igreja”.

    Mas o que se entende por “Tradição” ou por “Tradição viva” na vida da Igreja? Como articular fidelidade à Tradição eclesial com o multiforme fluir histórico-cultural? Como abordar a relação ruptura-continuidade, alteridade-identidade? Para isso, convido o leitor, a leitora para conferir o que o texto de Dimas Lara Barbosa, que buscou conselho junto ao Pe. Yves Congar, de saudosa memória, sugere a respeito.

    Passando do geral para tópicos e recordando os 50 anos da JUC no Brasil, nos pergun­tamos: o que a experiência da Ação Católica, particularmente da JUC, nos lega? Para res­ponder a esta pergunta contamos com o depoimento de Luiz Gonzaga de Sena, militante da JUC, que nos brinda - nesta primeira parte do depoimento - com seu testemunho e sua aná­lise a respeito do método “ver-julgar-agir”, que, mais que um simples método, se tomou uma concepção de vida. Uma página de nossa história católica foi ali escrita.

    Prosseguindo neste filão e a despeito da necessidade de uma constante autocrítica em função da centralidade de Jesus Cristo Salvador, ousamos perguntar: o que nos lega - a nós, cristãos, não só católicos - a tradição popular latino-americana a respeito da veneração aos santos? Vale conferir as considerações de Ricardo Willy Rieíh.

    Colocado na boca de Maria, que aspecto da Tradição cristã evoca, para nós, situados na passagem deste milénio, em meio a gritantes desafios sociais, o Magnificat? A pergunta é um convite para acompanhar a segunda parte das considerações de Lina Boffsobre a fala de Maria aos povos do terceiro milénio.

    E no final dos ensaios deste fascículo, retomamos a considerações de ordem geral. Sen­do que, de maneira mais intensa e imediata do que no passado, somos hoje colocados em rápi­do contato com diferentes culturas, quais são as perspectivas, as interrogações e as perplexi­dades que nos visitam no caminho ecuménico? Que reações suscita a Declaração Dominus Jesus? Você pode conferir isto com Faustino Luiz Couto Teixeira, estudioso de ecumenismo.

    Que a riqueza daquele que se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza e o testemu­nho dos Pais e das Mães na fé e na caridade nos dêem ajusta medida do apreço pela Tradição viva da Igreja de Jesus Cristo.

     

    Elói Dionisio Piva, ofm

    Redator

     

  • Sacralidade interior
    v. 60 n. 239 (2000)

    Assistimos, há algum tempo, ao retorno de antigas formas de expressar a busca e a experiência do Infinito e do Inefável. Palavras ou expressões, como: volta do sagrado, mistério, misticismo, magia, cura, new age, esoterismo, astrologia, tarô apareceram ou reapareceram com certa insistência. O que sinalizaria isto?

    Com o destaque à “sacralidade interior” dado neste fascículo, juntamente com o autor, Marcial Maçaneiro, deseja-se contribuir para o discernimento do fenômeno humano-religioso de nossos dias em duas direções complementares. Primeiro, apontando para o fundamental e decisivo que envolve a experiência religiosa e para a riqueza da linguagem simbólica, arquetípica e tradicional que a expressa. Em segundo lugar, resgatando, em tempos de nova evangelização, o valor e a importância de uma adequada pedagogia tanto para a busca como para a comunicação, existencial, do que se crê, se vive e se celebra. Redescobrir as sendas da mistagogia cristã (zelo e sabedoria pedagógicos para falar do mistério divino) significa acessar uma oportunidade de discernimento e de evangelização. Para isso, ajuda-nos a atenção ao sentido da linguagem simbólico-religiosa. Ela nos conduzirá a uma postura sabiamente humana, profética e, portanto, existencialmente empenhada e libertadora.

    Comefeito, é da experiência religiosa que se alimenta, ganha força e se embeleza toda a atividade em prol do Reino de Deus.

    Um caminho semelhante demonstraram ter percorrido as Comunidades Eclesiais de Base, quando, no X Encontro realizado em Ilhéus, de 11 a 15 de julho, seguiram, como eixo pedagógico de suas reflexões, estes três momentos: memória, sonho e compromisso. Confira  com João Batista Libânio.

    Fim de século e de milênio foi e continua sendo uma oportunidade de balanços. Antônio Moser o faz em relação aos últimos 50 anos de caminhada da Teologia Moral, particularmente em relação à Moral Renovada. Conseguiu esta, no seu todo, captar os antigos e novos desafios que se apresentaram no caminho da realização humana e dar-lhes uma resposta  adequada? Confira!

    Como aconteceu e, sobretudo, como poderia idealmente acontecer no presente e no futuro a transmissão da fé na nova evangelização na América Latina e no Caribe?Aose projetar a atual e a futura evangelização, apresentam-se linhas de uma Igreja-utopia. Luiz Alves de Lima sinaliza para a realização, o sofrimento e o encanto deste sonho.

    No ano jubilar de 2000, dedicado em ação de graças à SS. Trindade, João Luiz Correia Júnior nos apresenta uma bela síntese da compreensão que conseguimos ter de Deus e que em muito pode ajudar na evangelização em nossas comunidades eclesiais.

    José Oscar Beozzo, partindo de intuições expressas na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Ecclesia in America, no que se refere à busca da justiça social no Continente, dá algumas sugestões de conteúdo e demétodo para se avançar neste campo que tanto assola nossa gente.

    Enfim, Maria – Nossa Senhora: O que ela diz aos povos do terceiro milênio? Tendo presente a gravidade da realidade sócio-econômica dos pobres e excluídos, Lina Boff nos reapresenta, como hermenêutica do Magnificat, a evangélica mística de Deus, que ouve o clamor de seu povo e, misericordioso, intervém na história humana para salvá-lo, convocando-nos para sermos Seus discípulos.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Fé cristã: sincretismo ou inculturação?
    v. 60 n. 238 (2000)

    As realizações e perspectivas técnicas em matéria de comunicação fascinam hoje milhões de pessoas. Este fenômeno, porquanto agravado pela lentidão na democratização dos resultados, pela sempre renovada defasagem entre invenção e aplicação e pelo jogo de poder-domínio que o envolve, consciente ou inconscientemente, não só fascina, como também influencia multidões. Conseqtientemente, existe a possibilidade de se tomar maior consciência de que vivemos numa aldeia global pluralista, também em termos religiosos. Por isso, certamente, a cultura do diálogo ganha força; minha (ou nossa) configuração da experiência humana e religiosa pode ser melhor percebida como sendo uma entre outras; estas ou algumas destas outras culturas, talvez para mim (ou para nós) à primeira vista estranhas, podem ser percebidas numa surpreendente coerência. Em outras palavras, as formulações religiosas podem ser vistas como expressão da primordial função de toda a religião: re-ligar, estabelecer pontes e criar comunhão entre a finitude e o infinito, o imanente e o transcendente, o caos e a ordem. Além disso, a relação entre as pessoas, sujeitos da produção cultural, provoca mútua e pluriforme influência na própria formulação da experiência religiosa. Por isso, o conhecido fenômeno do sincretismo religioso pode ser visto como processo e desafio de inculturação. E, afinal, qual a pertinência pastoral de tudo isto, particularmente no Brasil? Mário de França Miranda nos ajuda na tarefa deste discernimento.

    As atuais condições de vida, estabelecidas pelo pensamento económico neoliberal e pela corrida técnico-científica, implicam em mudanças que, não raro, significam perdas (bens, trabalho etc.) e impõem para muitos um regime de migração, senão mesmo de exclusão social. Sem justificar as razões da sobrevinda migração, Paulo Suess ressalta três dimensões que emergem da experiência dos peregrinos e que questionam os fundamentos da atual ordem econômico-social: “a gratuidade, que questiona a lógica do mercado; a proximidade, que contesta a indiferença; e a universa¬lidade, que contracena com a globalização excludente”.

    Renata de Castro Menezes identifica e avalia, do ponto de vista antropológico, algumas características da Festa de Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro. Ela analisa o fenômeno religioso enquanto romaria da festa e visita festiva à santa. Ressalta as relações de reciprocidade que se estabelecem entre os devotos e a santa, ou, poderíamos também dizer, entre o profano e o sagrado. O estudo é interessante e importante justamente por chamar a atenção para a cultura religiosa, que poderíamos classificar de “popular”, que é fruto de dimensões humanas e teológicas profundas e que a elas remete. São manifestações religiosas, verificáveis sobretudo em santuários e que à pastoral ali desenvolvida não podem passar despercebidas.

    Neste final de milénio, o esquema de celebrações convencionado pela Igreja Católica reserva, para este ano, o convite para ação de graças à Santíssima Trindade. Luís Kirchner, num belo trocadilho, ressalta que, de modo particular, a família é sacramento da Trindade e que esta é arquétipo daquela. Por isso, seu estudo, além de ser um estímulo à glorificação da Trindade, o é também à valorização dos laços familiares, criados a partir da comunhão de vida e de amor, por mais que pesem sobre as famílias os desafios das condições sociais de hoje.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

     

     

  • O retorno da religião
    v. 60 n. 237 (2000)

    Já é lugar comum, neste final/início de milênio, referir-se ao despertar do interesse pela religião. E de se assinalar, contudo, que este despertar tem o mérito de também provocar a reflexão a respeito dos fundamentos da cultura, ou seja, dos horizontes de compreensão da existência humana. Inserido neste contexto, o ensaio de Hubert Lepar- gneur não se reveste apenas da atualidade que reafirma o referido despertar, mas, aproveitando a oportunidade, repensa conceitos fundamentais que envolvem a relação “religião-sagrado”, “imanência-“transcendência”. Estas são relações tão antigas quanto o ser humano, mas repensá-las pessoalmente é sempre uma redescoberta vital, é sempre atingir os fundamentos da cultura, é sempre discernir elementos da crise provocada pelo esquecimento das raízes, é acolher a visita que clareia o dia. A percepção do absoluto no horizonte da história humana se reveste, pois, de transcendental importância e é a possibilidade que o despertar religioso nos traz, nestes tempos de rápidas e profundas mudanças. Estabelecer, sempre de novo, a conexão com o próprio do ser humano é criar condições para bem viver, para o diálogo, para a convivência humana, para o encontro consigo mesmo, com toda a criação e com o Criador. Vale a pena entrar na percepção do Pe. Lepargneur.

    Após as considerações de caráter panorâmico e fundante do Pe. Lepargneur, uma temática interna, da Igreja, embora esta não esteja isolada do conjunto dos fenômenos sócio-religiosos, motiva o estudo, as apreciações e as proposições de Clodovis Boff, de Maria da Conceição Silva, de Antônio Alves de Melo, de Luiz Alberto Gómez de Souza. A aludida “temática interna” é dada pelos fenômenos do pentecostalismo autónomo, da renovação carismática, do aparente recuo das CEBs e do desafio que as grandes multidões e os pequenos grupos apresentam à práxis pastoral. As considerações, de grande interesse e atualidade, pnncipalmente para a Igreja no Brasil, partem de uma realidade culturalmente plural na Igreja e, portanto, as manifestações religiosas são defendidas como constituintes da “catolicidade” ou da grandeza de espíritos acolhedores da riqueza criacional. Assim, valoriza-se as caracteristicas tanto das massas populares como dos agrupamen¬tos menores, advoga-se a compreensão e a estima pela diversidade de manifestações na Igreja, recorda-se a tarefa coordenadora e orientadora da atividade pastoral, incentiva-se a comunhão na diversidade, anima-se os desalentados, busca-se o discernimento da sabedoria. Portanto, à luz do Espírito, estes ensaios ajudam os leitores a se situarem ainda melhor no contexto sócio-eclesial de hoje, de uma maneira critica e autocrítica.

    A segunda parte do artigo de Maria Clara Lucchetti Bingemer, Rosemary Fernandes da Costa e Márcio Henrique da Silva Ribeiro, nos recoloca na relação da Igreja com o mundo, entendendo que a Igreja está no mundo (Jo 17) e é mundo. Com a palavra “Mundo” alude-se, pois, à situação humana, vjsitada pelo esplendor do divino e perturbada pelas sombras do conflito e da violência. E o mundo da acolhida e da rejeição do Cristo, tanto hoje como ontem. Mas, a atualidade da reflexão é dada, principalmente e por um lado, pelos sintomas da violência nos grandes centros urbanos e, por outro, pela iniciativa de se fazer um balancete da missão da Igreja em relação ao mundo, por ocasião do presente ano jubilar. Partindo da análise da atuação da Igreja em duas circunstâncias históricas precisas, a das cruzadas e a da inquisição, os autores repropõem a missão do anúncio da Paz, lembrando que a Igreja, como seu Mestre, encontra-se em situações violentas e, mais do que ele, também encontra raízes da intolerância e da violência, do equívoco e da exclusão, aninhadas no coração de seus próprios filhos. No entanto, sua missão permanece a da Reconciliação. Para isso, uma releitura do testemunho e do contratestemunho dados no passado podem ajudá-la a redescobrir sempre de novo esta sua razão de ser.

    Enfim, com Paulo Sérgio Lopes Gonçalves temos a oportunidade de considerar a interpretação dos apelos do Reino de Deus pela TdL. a partir da realidade sócio-eclesial na AL. Um pensar polêmico, que, incentivado por circunstâncias sociais e eclesiais específi¬cas, criou uma epistemologia e uma metodologia próprias, como se poderá constatar.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

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