v. 67 n. 267 (2007): Matrimônio e questão de gênero

Este fascículo da REB coloca em destaque a relação entre cultura e Evangelho. Relação às vezes amistosa e convergente; outras vezes, tensa e divergente. Às vezes percebida e sondada analiticamente, outras nem percebida como tal. É o olhar humano que pode relacionar o Evangelho com a cultura, tomada   geral, ou como um conceito específico, então aplicado a cada cultura em particular, ou a aspectos ou momentos bem determinados e concretos da expressão humana. Relação Evangelho e cultura foi destaque na penúltima Conferência Geral do Episcopado latino-americano, em Santo Domingo. E continuará na ordem do dia, pois o ser humano se caracteriza como sujeito de cultura, criador de significados e significantes, agente de proposições e de recepção. E o Evangelho, estando na raiz geradora de cultura, inspira cultura, mas também pressupondo a natureza humana e com ela conjugando-se, gera atitude de escuta do próprio ser humano e, nele, de Deus.

Francisco Taborda, “afina” a relação cultura-Evangelho, coloca-a no âmbito do matrimônio e, mais especificamente ainda, sonda o papel das relações de gênero, seja na liturgia matrimonial proposta pela CNBB, seja na vida matrimonial a partir do papel e das funções de gênero estabelecidas pela cultura brasileira e, por extensão, latino-americana. A resultante comparação entre os modos de abordagem e de expressão do ser humano a partir de valores do Evangelho e da cultura latino-americano é instigante, senão provocante.

Num outro versante, em contraposição com o acento sobre o individual, emerge hoje a pergunta pelo fundamento da estruturação das normas da convivência humana. Em outras palavras, é a pergunta pelos fundamentos do Direito, ou seja, das convenções que têm por finalidade a articulação de um modo de convivência que honre o ser humano. Como contribuição Sinivaldo Silva Tavares traz à consideração os fundamentos judaico-cristãos do estado de direito, da convivência social, ou seja: a estrutura dialogal, baseada na igual dignidade de cada pessoa e que, portanto, assume a causa dos desprotegidos. Estes fundamentos emergem, hoje mais do que ontem, como uma necessidade não só nas relações dos seres humanos entre si, mas também destes em relação a toda a criação. No plano ideal, autonomia individual e responsabilidade solidária se entrelaçam.

Continuando o esforço no resgate dos fundamentos, agora do ponto de vista cristão-católico, João Manuel Duque articula a fenomenologia do ato de fé, demonstrando o dinamismo da conversão para Deus. Este dinamismo é inerente à corresponsabilidade com os seres humanos e com toda a criação. O contraponto da demonstração desta tese é estabelecido no diálogo com os fundamentos antropológicos da modernidade e da pós-modernidade.

Por sua vez, Afonso Maria Ligorio Soares e Fernando Torres-Londoño, abordam uma temática próxima uma da outra: o diálogo entre cristianismo e tradições africanas. O primeiro se movimenta, inspirado pela “escola” de François de L’Espinay em Salvador da Bahia, e o segundo, demonstra a relação entre a Igreja católica e escravidão dos africanos, também em Salvador da Bahia, mas a partir das Constituições Primeiras, de 1707. No dia-a-dia aparecem desafios e perspectivas ensaiadas pelo diálogo Evangelho-cultura(s), lembrando o artigo de Francisco Taborda.

Encerrando a seção de artigos, Agenor Brighenti, escrevendo sobre o gnosticismo, demonstra como antigas questões são sempre novas, e como questões revestidas de roupagem ou articulação moderna são antigas. Ora, isto ajuda a visitar e a revisitar o ser humano a partir de suas manifestações; ajuda a buscar e a repropor a Boa Nova de Jesus Cristo, levando em consideração os sinais culturais dos tempos e dos lugares.

A Redação da REB deseja que os leitores possam haurir bons frutos da partilha aqui possibilitada.

Elói Dionísio Piva ofm

Redator

Publicado: 2007-04-09

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