v. 60 n. 237 (2000): O retorno da religião

Já é lugar comum, neste final/início de milênio, referir-se ao despertar do interesse pela religião. E de se assinalar, contudo, que este despertar tem o mérito de também provocar a reflexão a respeito dos fundamentos da cultura, ou seja, dos horizontes de compreensão da existência humana. Inserido neste contexto, o ensaio de Hubert Lepar- gneur não se reveste apenas da atualidade que reafirma o referido despertar, mas, aproveitando a oportunidade, repensa conceitos fundamentais que envolvem a relação “religião-sagrado”, “imanência-“transcendência”. Estas são relações tão antigas quanto o ser humano, mas repensá-las pessoalmente é sempre uma redescoberta vital, é sempre atingir os fundamentos da cultura, é sempre discernir elementos da crise provocada pelo esquecimento das raízes, é acolher a visita que clareia o dia. A percepção do absoluto no horizonte da história humana se reveste, pois, de transcendental importância e é a possibilidade que o despertar religioso nos traz, nestes tempos de rápidas e profundas mudanças. Estabelecer, sempre de novo, a conexão com o próprio do ser humano é criar condições para bem viver, para o diálogo, para a convivência humana, para o encontro consigo mesmo, com toda a criação e com o Criador. Vale a pena entrar na percepção do Pe. Lepargneur.

Após as considerações de caráter panorâmico e fundante do Pe. Lepargneur, uma temática interna, da Igreja, embora esta não esteja isolada do conjunto dos fenômenos sócio-religiosos, motiva o estudo, as apreciações e as proposições de Clodovis Boff, de Maria da Conceição Silva, de Antônio Alves de Melo, de Luiz Alberto Gómez de Souza. A aludida “temática interna” é dada pelos fenômenos do pentecostalismo autónomo, da renovação carismática, do aparente recuo das CEBs e do desafio que as grandes multidões e os pequenos grupos apresentam à práxis pastoral. As considerações, de grande interesse e atualidade, pnncipalmente para a Igreja no Brasil, partem de uma realidade culturalmente plural na Igreja e, portanto, as manifestações religiosas são defendidas como constituintes da “catolicidade” ou da grandeza de espíritos acolhedores da riqueza criacional. Assim, valoriza-se as caracteristicas tanto das massas populares como dos agrupamen¬tos menores, advoga-se a compreensão e a estima pela diversidade de manifestações na Igreja, recorda-se a tarefa coordenadora e orientadora da atividade pastoral, incentiva-se a comunhão na diversidade, anima-se os desalentados, busca-se o discernimento da sabedoria. Portanto, à luz do Espírito, estes ensaios ajudam os leitores a se situarem ainda melhor no contexto sócio-eclesial de hoje, de uma maneira critica e autocrítica.

A segunda parte do artigo de Maria Clara Lucchetti Bingemer, Rosemary Fernandes da Costa e Márcio Henrique da Silva Ribeiro, nos recoloca na relação da Igreja com o mundo, entendendo que a Igreja está no mundo (Jo 17) e é mundo. Com a palavra “Mundo” alude-se, pois, à situação humana, vjsitada pelo esplendor do divino e perturbada pelas sombras do conflito e da violência. E o mundo da acolhida e da rejeição do Cristo, tanto hoje como ontem. Mas, a atualidade da reflexão é dada, principalmente e por um lado, pelos sintomas da violência nos grandes centros urbanos e, por outro, pela iniciativa de se fazer um balancete da missão da Igreja em relação ao mundo, por ocasião do presente ano jubilar. Partindo da análise da atuação da Igreja em duas circunstâncias históricas precisas, a das cruzadas e a da inquisição, os autores repropõem a missão do anúncio da Paz, lembrando que a Igreja, como seu Mestre, encontra-se em situações violentas e, mais do que ele, também encontra raízes da intolerância e da violência, do equívoco e da exclusão, aninhadas no coração de seus próprios filhos. No entanto, sua missão permanece a da Reconciliação. Para isso, uma releitura do testemunho e do contratestemunho dados no passado podem ajudá-la a redescobrir sempre de novo esta sua razão de ser.

Enfim, com Paulo Sérgio Lopes Gonçalves temos a oportunidade de considerar a interpretação dos apelos do Reino de Deus pela TdL. a partir da realidade sócio-eclesial na AL. Um pensar polêmico, que, incentivado por circunstâncias sociais e eclesiais específi¬cas, criou uma epistemologia e uma metodologia próprias, como se poderá constatar.

Elói Dionísio Piva, ofm

Redator

Publicado: 2000-03-31

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