v. 62 n. 247 (2002): Igreja: desafios inusitados

Ultimamente a Igreja católica tem sido objeto de reiteradas matérias, divulgadas através de meios de comunicação escrita, falada e televisiva. O motivo de os holofotes se terem voltado para ela foram os mais ou menos recentes casos de pedofilia envolvendo alguns de seus membros. Evidentemente não se trata de uma questão exclusiva da Igreja católica nem de nossos dias. Contudo, a maior consciência de direitos sociais no mundo atual, entre outros, ajudou a chamar a atenção sobre a questão. Além de apontar para mazelas ou fraquezas de membros da hierarquia católica, as abordagens apontam para o direito de reparação das vítimas e questionam o modo de proceder da Igreja católica em relação aos infratores. No intuito de contribuir no discernimento da problemática, a REB traz neste fascículo uma colaboração de Antônio Moser. Como ele mesmo afirma no título, trata-se de primeiras impressões e interpelações, sinalizando que o assunto demanda mais estudo e renderá mais considerações. Mas, nesta altura, já é possível levantar circunstâncias de contexto social em que o fenômeno acontece, dar-se conta da questão, ou seja, olhá-la de frente, precavidos de sensacionalismos interesseiros e pouco caridosos, bem como reavaliar linhas de formação nos seminários, realçando a necessidade de uma formação para o amor.

Invariavelmente uma educação para o amor leva aos caminhos de Deus. E estes, manifestados em Jesus Cristo, conduzem à generosa doação da vida a serviço dos irmãos e de toda criatura. Levam a assumir serviços. Francisco Taborda retoma a tradição dos ministérios ordenados, na Igreja católica: o ministério dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos. Evoca seu sentido e percorre o caminho de sua instauração. Deste percurso ressalta a evidência da necessidade e importância destes serviços. Particularmente, poderíamos destacar, para nossos dias, o do diaconato. Quando a CNBB convida a Igreja no Brasil a contribuir mais ainda no combate à fome e à miséria no país, o ministério do diaconato retoma e pode revigorar a consciência e a ação da Igreja em favor dos pobres e excluídos de elementares condições de vida digna. Encontrar maneiras de reforçar o serviço de diáconos na promoção social significa, em última análise, testemunhar uma educação e uma vivência de amor e expressar fidelidade ao Deus de Jesus Cristo, Deus-Amor.

O exercício de ministérios acontece, capilarmente, em comunidades e, aqui, fazemos menção às CEBs. Neste particular, Jomar Ricardo da Silva destaca a interação entre agentes de pastoral e animadores, identificando o contínuo desafio de se ter consciência de que nestas inter-relações há uma questão de poder e de que este precisa sempre ser questionado, na Igreja – evidentemente também nas CEBs – sobre seu sentido e seu exercício, a fim de que esteja a serviço da comunidade.

Enfim, duas análises de caráter reflexivo: uma, de Jacques Hilaire Vervier, sobre e a partir da relação entre economia de mercado e ética nas últimas quatro décadas no Brasil e outra, de Luiz Roberto Benedetti, sobre e a partir de expressões do catolicismo no atual pontificado. A primeira, embora restrita ao Brasil, também aponta para potencialidades e limites da economia de mercado; a segunda, embora mais centrada na análise do atual pontificado, envolve potencialidades e limites da auto-representação do catolicismo atual e de sua forma de interagir com o mundo de hoje. A primeira acena para o horizonte utópico da renda mínima, incondicional e independente do trabalho; a segunda, com uma dialética sintonia entre mensagem cristã e cultura moderna.

Que a interação possibilitada pelas considerações acima apresentadas possa fortalecer e qualificar a todos, em seu caminhar de fé.

Elói Dionísio Piva, ofm

Redator

Publicado: 2002-07-31

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