Arquivos - Página 3

  • Protagonismo leigo
    v. 55 n. 219 (1995)

    Evangelizada, evangeliza! Eis a razão de ser da Igreja. Proclamar Aquele que, com amor eterno, a amou primeiro, constitui-se na identidade que a define. Por isso, não pode deixar de anunciar a Jesus Cristo, portador da plenitude da Vida e, portanto, Libertador do pecado. Não se cansará de celebrá-lo e de convidar todos os seres para este louvor. Não se cansará de buscar meios eficazes, no Espírito Santo, para que o Seu Reino se manifeste, renovando a face da terra.

    É justamente em função desta missão que os batizados, constituídos em Povo de Deus, nos entendemos como um povo ministerial. Evangelizar: eis o ministério – glória do Senhor, porque promotor da dignidade humana.

    Contudo, organizar este serviço e adequá-lo sempre de novo às variáveis circunstâncias histórico-culturais dos tempos e dos lugares é um dos desafios permanentes, manifestado em Planos de Evangelização, em Congressos Missionários.

    É em função disto e fundamentado em recentes pronunciamentos da Igreja Universal e Latino-Americana, que Dom Aloísio Lorscheider, embora em forma quase embrionária, propõe a criação de uma conferencia nacional de cristãos leigos, como uma forma de, em comunhão eclesial, incrementar a missão evangelizadora da Igreja e de fortalecer a tarefa específica dos leigos no plurifacetário mundo de hoje.

    Paulo Suess reevoca a figura de São Francisco, modelo de evangelizador. Como irmão menor, como irmão universal, como cantor da bondade do Criador em toda criatura, ele é uma brilhante e permanente luz também para o evangelizador de hoje.

    E a religiosidade popular: continua sendo um veículo de evangelização para hoje? Observando-a através da devoção antoniana, Ildefonso Silveira mostra seu valor, caracterizado sobretudo por seu aspecto imediato, concreto, plástico, epidérmico, sensível de sua manifestação; pouco afeita a erudições intelectuais, provoca os intelectuais da fé por sua autenticidade.

    Inegavelmente, a cultura urbana é um qualificativo da modernidade. Como se caracteriza? Quais as chances e os desafios que a cidade apresenta aos cristãos? Estas e outras perguntas, mais ou menos conscientes, estão hoje nos lábios de não poucos cristãos. Pedro Carlos Cipolini traz uma importante contribuição no debate para a inculturação urbana da evangelização.

    Sendo o cotidiano da história humana marcado também por situações de conflito e até de violência, oportunamente Alfredo Bosi nos recorda o empenho de Domingos Barbé, para elucidar este aspecto desafiador, em vista de uma evangelização madura, que tem no Crucificado e Ressuscitado Aquele que assume em toda sua profundidade a história humana.

    Nos diferentes contextos sócio-culturais de hoje e na velocidade da sua mudança, ontem, hoje e sempre, Jesus Cristo é o Evangelho do Pai. Importa, pois, aprender dele e com ele percorrer o caminho do serviço evangelizador. E o que nos lembra Antônio Alves de Melo.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • "Evangelho da Vida"
    v. 55 n. 218 (1995)

    “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). Uma vocação a ser atualizada nas mais diferentes situações e culturas. Anunciar o Evangelho da Vida, sendo luz e sal no exercício de um sadio pluralismo.

    Com efeito, hino de louvor à vida humana, vigoroso grito em sua defesa, encarecido convite em favor de sua promoção é a “Evangelium vitae”, a undécima carta encíclica de João Paulo II. Num esforço de síntese, Frei Antônio Moser reapresenta seu conteúdo, indica em que consiste sua novidade e aponta suas coordenadas fundamentais.

    Conjugando anúncio e diálogo, Faustino Teixeira resume e comenta dois recentes documentos do Magistério Eclesial na área da evangelização: a carta encíclica Redemptoris Missio de João Paulo II (1990) e o documento Diálogo e Anúncio do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso (1991). Tanto a explicitação e a divulgação do conteúdo dos dois documentos, como o comentário de F. Teixeira, vêm em hora oportuna: às vésperas do V COMLA (Congresso Missionário Latino-Americano) em julho na capital mineira.

    No atual contexto sócio-religioso brasileiro, a evangelização encontra interlocutores com muitos rostos diferentes. Neste quadro de pluralismo religioso e no ideal de diálogo e máxima estima, Mário de França Miranda vê a chance de redescobrir ou recriar referenciais católicos, particularmente a partir da experiência salvífica, mola propulsora da evangelização.

    No horizonte do atual pluralismo religioso-cultural um conjunto de proposi¬ções denominado “Nova Era” aparece com certa insistência. De que se trata? De uma nebulosa de contornos pouco definidos e de fraco apelo histórico-social? De um novo patamar cultural? Em todos os casos, no esforço de “examinar tudo e ficar com o que é bom” (1Ts 5,21), Vítor Galdino Feller relaciona Nova Era e Fé Cristã. Um esforço esclarecedor, pois a atitude de diálogo intercultural, do ponto de vista da fé, nos pode ajudar tanto no reconhecimento das sementes do Verbo quanto no estabelecimento das devidas distinções.

    Finalmente, o diálogo intra-eclesial. Na interação de diferentes movimentos e agremiações se concretiza um processo de evangelização “ad intra”. Acercando-se da RCC como de um movimento que se instaura a partir de uma experiência religiosa, Francisco Cartaxo Rolim procura realçar alguns aspectos, mais ou menos luminosos, que a distinguem. Este ensaio, como os demais, faz parte da busca das razões da fé e de sua relação com a própria cultura ou com as demais; faz parte da edificação do Povo de Deus como um todo.

    Elói Dionísio Piva, OFM

    Redator

  • Sínodo/94: Vida Consagrada
    v. 55 n. 217 (1995)

    O Amor é que move o universo, dizia Dante, aludindo ao segredo de todos os seres e de todas as coisas.

    Consequentemente, todo movimento e toda atividade, particularmente a humana, são expressão do amor e, por sua vez, geram mais amor. Talvez pareça enfadonho recordar a intuição do poeta, sendo que expressou o óbvio. Tão óbvio como lembrar que o motor possibilita o deslocamento do carro; água e comida, uma longa caminhada; o repouso, restabelecimento das energias. Alusões claudicantes, certamente, mas, uma vez que só vivemos e agimos sabiamente na força e pela força do Espírito, é de vital importância ajustar o motor, providenciar água e comida, retirar-se com o Senhor.

    Escrevo isto, aludindo à direção geral dos ensaios – artigos e comunicados – contidos neste fascículo. Eles expressam a presença e a busca do combustível essencial para a contemplação e a atividade histórica da Igreja.

    Dom Aloísio Lorscheider, fazendo um relato do último Sínodo dos bispos, não tem dúvida de que, na ocasião, se tratou de uma dimensão vital da e para a Igreja, ou seja, de sua vocação à santidade, manifestada de maneira evidente na consagração religiosa. A busca das raízes desta consagração significa reencontrar a alma, o espírito. Consagrar-se significa, sim, retirar-se do mundo, mas retirar-se significa principalmente mergulhar no coração do mesmo mundo e assim fecundar a história.

    Nilo Agostini aborda uma temática tradicional – as virtudes – e reaviva a íntima e indispensável relação entre a força de Deus e o vigor da atuação histórica, relação esta que todo cristão é convidado a cultivar.

    Francisco de Assis Correia escreve sobre bioética. Muito se fala hoje em dia sobre o assunto, e não é indiferente dar-se conta ou não dos apelos que, na veste da cultura atual, nos vêm da ética da vida, tomada quer em sentido amplo quer em sentido restrito.

    Bemardino Leers, em relação à família, nos evidencia a necessidade de permanentemente caminhar com a evolução da história cultural que a envolve, cultivando, de maneira variada, os valores éticos que lhe são próprios.

    Márcio Fabri dos Anjos dialoga com a comunidade científica biomédica sobre ética e clonagem humana. Diante das possibilidades da manipulação genética fica mais evidente a responsabilidade ética do agir humano.

    Ildefonso Silveira, ao ensejo dos 800 anos do nascimento de Santo Antônio – o santo mais popular da religiosidade brasileira – e decodificando expressões culturais do século XIII, evidencia nele a atividade de evangelizador.

    Finalmente, José Maria Vigil nos lembra que, diante de algumas circunstâncias históricas adversas, é preciso recobrar esperança e, acima de tudo, ter os olhos fitos na utopia de Jesus Cristo.

    Elói Dionísio Piva, OFM

    Redator

  • Utopia cativa
    v. 54 n. 216 (1994)

    Um rico e variado repertório se encontra neste fascículo. Nutrimos, pois, a esperança de que será de muita utilidade.

    Em decorrência da evolução econômica, política e social dos últimos anos, o mercado mundial, juntamente com seu suporte ideológico neoliberal, apresenta-se como aurora da nova era: mundialização do mercado, “fim da história”. É uma utopia que pretende se aproximar com seu brilho. Quem eventualmente a ela se opuser está fadado a perder o rumo da integração social, opta pela exclusão social. Parece até não haver mais outra perspectiva histórica e humana possível. É um bezerro de ouro que seduz e escolhe os seus convidados.

    É, contudo, em nome da transcendência humana a toda realização histórica, em nome do Deus totalmente Outro, em nome do Reino de Deus e, particularmente, em nome da revolucionária esperança dos excluídos do mercado mundial que a consciência humana e cristã se levanta. Um fenômeno paradoxal! Por um lado, os que mostram os pés de barro do ídolo parecem ser os eternos insatisfeitos, os sonhadores de sempre, que tudo criticam e não são capazes de apresentar propostas viáveis para demandas concretas da vida humana. Por outro, não podem não se alegrar com os sinais de esperança que ampliam as perspectivas da mesma vida humana. É que o Reino já está, sim, no meio de nós, mas ainda não se manifestou plenamente. Por isso, podem dizer como São Paulo: “Ai de mim se não evangelizar”, o que significa anunciar a Cristo crucificado. Seguindo o Mestre, este é o caminho, não outro. A denúncia da idolatria e a defesa dos excluídos – a mais vibrante reserva de esperança e teimoso sinal do sonho de plenitude humana – fazem parte do conteúdo evangelizador. O anúncio da Vida, da Liberdade, da transcendência humana implica na denúncia dos bezerros de ouro que tentam hipnotizar a utopia. Com efeito, todo avanço é sinal da realização plena e de todos, mas é tão-somente sinal; toda beleza vislumbrada é uma ascensão, mas é tão-somente um sinal da beleza eterna; toda inclusão na mesa humana é um passo na realização da utopia da família humana, mas é tão-somente um passo. Franz J. Hinkelammert anuncia a utopia humana e denuncia pretensões idolátricas de nossos dias.

    Bárbara Pataro Bucker configura o modelo esponsal de Igreja no documento de Santo Domingo.

    Nilo Agostini, ao término deste ano dedicado à família, levanta as condições da mesma no Brasil de hoje.

    Ari Pedro Oro tece o relacionamento entre aspectos religiosos da modernidade e da pós-modernidade com a prática pastoral da Igreja.

    Evandro A. D’Assumpção evoca uma temática comum no dia-a-dia das pessoas e da cultura novelística: a partir da fé cristã e da parapsicologia, o que podemos afirmar sobre comunicação com os mortos?

    Cláudio de Oliveira Ribeiro atualiza a contribuição de Paul Tillich para o diálogo entre fé e a dominante cultura moderna.

    Elói Dionísio Piva, ofm

    Redator

  • Laicidade da VR
    v. 54 n. 215 (1994)

    Em outubro, a Vida Religiosa ocupará a atenção do sínodo dos bispos. Ela, enquanto expressão da vocação universal à santidade e dom que Deus concede à sua Igreja, transcende todas as classificações. No entanto, como se manifesta no mundo, gera uma relação dialética, sacramental. Sempre de novo, o dom pode ser acolhido ou rejeitado e, consequentemente, a consagração pode ou não acontecer.

    Portanto, uma vez que acontece na história – teste de sua veracidade importa ressituar constantemente esta dimensão humana, que re-liga com o transcendente, e reavaliar a autenticidade da consagração a Deus. Vale perguntar – e a pergunta ganha maior pertinência para os que se congregam a partir desta consagração – como é que esta dimensão nos situa em relação ao transcendente e ao secular, e, nas instâncias do Povo de Deus, em relação aos leigos e ao clero. Em particular, como nos situa em relação aos excluídos da mesa humana. Por certo, é nesta relação que se testemunha ou não a consagração aos valores do Reino.

    Evidentemente, ao se considerar a Vida Religiosa, tocam-se dimensões essenciais da Igreja e o equilíbrio é sobremaneira desejável. Tendo, pois, condividido seu trabalho com a Equipe de Reflexão Teológica da CRB, Clodovis M. Boff nos convoca a uma reflexão corajosa que tem o mérito de nos levar às fontes e à inspiração, ao sonho e à utopia da RV.

    Por coincidência, em 1993/94 celebrou-se o 8o centenário do nascimento de Santa Clara. Como se articulou e se expressou nela e em Francisco de Assis – seu inspirador – a utopia da dimensão religiosa? Qual o fascínio do sonho deles? Honório Rito de L. Brasil nos fala disso.

    É óbvio que, com todos os homens, também os cristãos são chamados a participar responsavelmente da gestão da cidade terrena. O que importa, porém, é a consciência dos fundamentos do exercício qualificado da cidadania. Buscando um “modo ético” para a atividade política, o prof. Augusto de Franco evoca o exemplo de M. Gandhi e faz ressoar o espírito das Bem-aventuranças na administração dos conflitos humanos. Por sua vez, o prof. Paulo F.C. de Andrade fundamenta e ilumina a participação política dos cristãos, com critérios de ordem teológico-pastoral.

    Há pouco aconteceu o sínodo da Igreja africana e, apesar de nossas expressivas vinculações étnico-culturais com aquele continente, relativamente pouca informação chegou até nós. Felizmente, porém, Marcelo de Barros Souza, próximo ao encontro, nos apresenta os temas que mais interpelam a Igreja africana no momento e, do evento, busca inspiração para nossa realidade eclesial.

    Por fim, certamente vale a pena perguntar por um aspecto cotidiano do exercício ministerial do padre, do evangelizador: a homilia, como vai? A quantas anda a comunicação? Possivelmente não será supérfluo verificar o que Jerônimo Gasques tem a nos dizer a respeito.

    Frei Elói Dionísio Piva

    Redator

  • Despertar ético
    v. 54 n. 214 (1994)

    Há tempo que o termômetro da inquietação social aponta para números elevados. Constatamos que as dimensões deste fenômeno se dão em nível mundial e, de modo particular, na sociedade brasileira. A Igreja, enquanto inserida na grande história da humanidade, também é agente ativo e passivo do fenômeno. Enquanto processo histórico de interação entre carência e plenitude, esta inquietação faz parte do estatuto conjuntural da vida humana. Mas, o tom de exigência e de urgência de mudanças é que faz a diferença e acelera o processo. A palavra “crise” e sua qualificação como crise da “modernidade” estão na ordem do dia. Ora, dizer “crise da modernidade” é afirmar que os valores basilares da cultura moderna, particularmente o da subjetividade, estão sendo questionados. Estão sendo questionados a partir da insatisfação de muitos de seus frutos e principalmente a partir da utopia de uma plenitude maior. Trata-se de um redespertar ético que repropõe com vigor o senso da cidadania e da solidariedade, da liberdade e da corresponsabilidade, da justiça social, da verdade e da vida como valores fundantes do ser humano. O desconforto de ser mendigo destes valores, às vezes, turva o horizonte. A sede de justiça e de amor é, porém, sinal de esperança. É testemunho da atuação do fermento do Evangelho do Reino, na Igreja e no mundo. Harold Drefahl, Jung Mo Sung, Olinto A. Pegoraro e José Roque Junges, respeitadas as diferenças de temas e enfoques, nos ajudam a entrarmos nesta sintonia. Em “momentos” de profundas mudanças na conjuntura da vida humana sobre a terra é preciso redescobrir a razão de ser da Vida Religiosa e a função de seu lugar social. O próximo Sínodo dos Bispos se ocupará justamente deste assunto. José Maria Vigil toca esta corda e dá o tom do sinal escatológico da VR.

    A evangelização, particularmente ao interno da própria Igreja inserida na cultura secular de hoje, é uma provocação à criatividade do amor cristão. Diante de situações novas, como fazer, onde buscar luzes? A Tradição da Igreja é um manancial de inspiração para uma criatividade coerente. Bernhard Häring, conhecido mestre em Teologia Moral, Leonardo Meulenberg, Marcial Maçaneiro e João Carlos Almeida nos orientam nesta senda.

    Retomando à realidade sócio-religiosa brasileira e, especificamente, à religião popular, Pedro A. Ribeiro de Oliveira avalia seu potencial crítico e sócio-transformador, bem como alguns de seus limites; Eduardo Hoornaert traz ao nosso conhecimento a contribuição de Thales de Azevedo para a sociologia do catolicismo no Brasil. Ambos nos ajudam a tomar contato – sempre salutar – com nossas raízes religioso-culturais.

    Frei Elói Dionísio Piva

    Redator

  • "Veritatis Splendor"
    v. 54 n. 213 (1994)

    Abordando temas da atualidade teológico-pastoral, a REB pretende contribuir para a criativa recepção da “Veritatis splendor” e para o incremento da reflexão em tomo do tema da inculturação, do trabalho e da família.

    Antes mesmo da publicação da Encíclica e logo que esta ocorreu veicularam-se as primeiras avaliações a respeito de seu conteúdo e forma. Em seguida, porém, o empenho para uma análise e compreensão mais ponderadas chega a resultados mais abalizados. A REB deseja continuar (cf. fasc. de dez./93, p. 935-937) neste esforço, a fim de que seus leitores possam avaliá-la de maneira sempre mais lúcida e eclesial. Para isso, tem a satisfação de apresentar o ensaio de leitura de Hubert Lepargneur. Ele se detém na elucidação dos conceitos básicos da Encíclica, que, ao enaltecer a dignidade da pessoa humana originada do Amor e a ele vocacionada, apresenta um pertinente diagnóstico da crise ético-moral da atualidade.

    A reflexão sobre a inculturação do Evangelho está longe de se esgotar. Por exemplo, talvez não seja exagerada a constatação informal de que a maioria do clero tem dificuldade de compreender o homem urbano, embora a urbanização se constitua num dos dados sociológicos mais notáveis e óbvios da cultura ocidental moderna. Com efeito, os diversos encontros promovidos ultimamente têm o intuito de levar a uma tomada de consciência da cultura urbana e das decorrentes exigências de adequação da evangelização. A REB mantém e manterá este sinal de esperança na ordem do dia. A reflexão que ora apresenta tem o mérito de tomar óbvio a inculturação do anúncio da fé no plano prático, senão mesmo o de alargar os horizontes de compreensão da encarnação de Jesus Cristo. Paulo Suess, conhecido pesquisador do assunto, é quem nos brinda com esta rica contribuição.

    No afã de ganhar o feijão e o arroz de cada dia, o trabalho, com suas possibilidades e seus limites, é preocupação cotidiana e, talvez, primeira, para a maioria das pessoas. A REB deseja ser portadora desta inquietação, que, por ser tão cotidiana, talvez até passe um tanto despercebida dos afazeres teológico-pastorais. A primeira contribuição é de Carlos Alberto Steil, que recolhe o despertar da consciência social e cristã do trabalho humano no Brasil. Contudo, se o interesse do leitor recair sobre a vocação do homem para a ação, a evolução dos instrumentos de trabalho e suas consequências sociais, Frei Luís Maria Sartori, com sensibilidade pastoral, lhe oferece um sugestivo depoimento; se preferir sondar as perspectivas que se abrem a partir da acelerada revolução tecnológica de nossos dias e os desafios sócio-religiosos dela decorrentes, é Bernardo Lestienne quem, do ponto de vista sociológico, apresenta um pertinente panorama da atual cultura do trabalho.

    Finalmente, no âmbito do ano internacional da família e da CF/94, considerações de fundo a respeito do aborto e aspectos jurídicos do planejamento familiar. Assuntos delicados e conflitivos, que são tratados de maneira respeitosa, serena e competente por Cléa Carpi da Rocha.

    Na esperança de contribuir para a eficácia da evangelização:

    Frei Elói Dionísio Piva

    Redator

  • Pastoral Familiar
    v. 53 n. 212 (1993)

    A Igreja no Brasil em 1994 concentrará sua atenção pastoral na família. O ouvido de pastor ouve principalmente o gemido de milhares de ensaios de família, de famílias quebradas física e moralmente, com frequência mais vítimas do que sujeitos de sua própria história. Por isso, a partir do primado universal e familiar do amor, usará de inteligência e de misericórdia. Anunciará as exigências deste primado e priorizará o convite e o incentivo sobre a cobrança, a compreensão e a paciência sobre o juízo. Frei Antônio Moser articula lucidamente estes desafios da pastoral familiar, no contexto social brasileiro. Já o casal Cláudia e Diego Naranjo avalia a atuação dos Movimentos Familiares na Igreja. Distingue potencialidades e limitações. Diante dos desafios e das possibilidades, o casal advoga uma progressiva integração de iniciativas.

    Santo Domingo é nosso segundo destaque. Pastoralmente importa ter clareza em que sentido o legado deste encontro pode incrementar e orientar lucidamente o dinamismo da caridade. Clodovis Boff nô-lo oferece, em clara e resumida síntese. Deste legado, certamente é a evangelização inculturada a intuição mais original. Pressuposta esta orientação de fundo, importa debruçar-se com carinho e inteligência sobre as variadas manifestações culturais em nosso Continente, a fim de deixar-se surpreender pela manifestação de Deus na história dos agentes destas culturas. José Oscar Beozzo, articulando este enunciado com a realidade histórica latino-americana, nos fornece intuições valiosas.

    Luiz Roberto Benedetti tem por objeto relacionar o discurso predominante da sociedade nos anos 90 com o da Igreja. Sem cair em mimetismos, ao indicar os canais em que a maioria das pessoas desta época está sintonizada, à Igreja sugere sensibilidade, a fim de que, ajustada a linguagem, se mantenha atualizada.

    Pertinente ponderação, imprescindível do ponto de vista metodológico e hermenêutico, nos vem de Paulo Suess. O autêntico relato da história dos outros é como rua de mão dupla: atividade dialogal. Como seria ele, em relação à América Latina, se fosse tecido a partir das possibilidades e dos limites colocados pelo binômio comunhão-alteridade?

    Santo Domingo convidou os leigos a serem protagonistas da evangelização. Neste quadro e colhendo a oportunidade dos 100 anos de nascimento de Alceu Amoroso Lima, Pe. Djalma Rodrigues de Andrade pontualiza a trajetória cristã, eclesial, socialmente lúcida; engajada deste líder leigo brasileiro. Por sua vez, Leonardo Meulenberg narra a paradigmática caminhada espiritual de S. Agostinho. É itinerário que, bem sinalizado, fala por si mesmo.

    Enfim, Hélcion Ribeiro no; apresenta, em sugestiva imagem, a relação lúdica de Deus com o Homem. Num mundo frequentemente entristecido pelo desencanto e pela brutalidade, a presença de Deus é maravilha de reencanto e beleza.

    Fr. Elói Dionísio Piva

    Redator

  • Direito de associação na Igreja
    v. 53 n. 211 (1993)

    Caros leitores da REB, ao abrir este fascículo Vocês encontram o convite do Pe. José Comblin para, com ele, refletir sobre a relação Igreja/cultura dos pobres. Apesar de os leigos terem sido valorizados em Santo Domingo, será que uma de suas formas de associação - as CEBs - encontra cidadania na Igreja? O Pe. José Comblin retoma sua intuição de 1990 e invoca o direito de livre associação na Igreja para salvaguardar a intuição original das CEBs, integrando-as juridicamente na mesma Igreja. Com esta proposta ele resgata a tradição leiga em nossa história e, principalmente, vai ao encontro da cultura do homem urbano de hoje. Este homem urbano (e o espírito urbano ultrapassa os limites estritos da cidade) prima pela liberdade, pela autonomia, pelo espírito de iniciativa. Aspira à comunhão eclesial, participando como sujeito, livre, criativo e associado. Comblin repropõe, pois, a salvaguarda da intuição básica das CEBs: valorização da cultura popular na Igreja e presença dos leigos como sujeitos da vida eclesial.

    Da eclesiologia Vocês são convidados a retomar às preocupações e ocupações pelo pão nosso de cada dia. O Pe. Jacques Hilaire Vervier tem uma sugestiva consideração, decorrente da relação: utopia cristã e racionalidade econômica. Ele mostra a importância de se manter o senhorio da utopia cristã face à racionalidade econômica. Enquanto sedutora de novos valores e sentidos, de um mundo melhor, enquanto projeção das aspirações mais nobres do ser humano, a utopia é um antídoto contra a inércia e esclerose de todas as formas de convivência social. É profetismo cristão. Por sua vez, neste mesmo campo da economia, o prof. Herman Vos nos apresenta um estudo sobre o Pe. Antônio Vieira, em que este, embora sensível às ambiguidades do “jogo” econômico da época, advoga que o rei tenha os meios necessários para manter as conquistas e dilatar a fé cristã.

    Com Faustino Luiz Couto Teixeira e José Maria de Paiva retomamos às CEBs. O primeiro, um estudioso do assunto, nesta contribuição elaborada antes do 8o Intereclesial, faz um balanço da atual conjuntura sócio-eclesial e aponta a inculturação, a evangelização e a espiritualidade como vetores das CEBs na atualidade. O segundo, com um estudo também elaborado há mais tempo, mostra o específico da função educativa das CEBs: a partir da fé, um caminho de participação, de integração fé e vida.

    Finalmente, por ocasião da beatificação de Duns Escoto e em sua homenagem, Dom Boaventura Kloppenburg nos retransmite a natureza prática da teologia no pensamento escotista: o conhecimento em função do amor; o amor essencialmente práxis.

    Mas não deixem de verificar também o estudo de Francisco Taborda e o depoimento do Dom Erwin Krautler: eles elucidam o itinerário teológico-eclesial do documento de Santo Domingo.

    Fr. Elói Dionísio Piva

    Redator

  • Cristianismo e culturas indígenas
    v. 53 n. 210 (1993)

    A IV Conferência do Episcopado Latino-americano expressou o desejo de uma evangelização inculturada e a incentivou. Um ideal, cuja aproximação certamente requer prévia identificação de eventuais desafios e um correspondente posicionamento frente aos mesmos. Nesta perspectiva, Francisco Taborda, partindo da experiência de missionários que atuam entre tribos indígenas no interior do Brasil, aponta e analisa alguns impasses e dilemas de ordem prática. Ao fazer isto, trabalha o conceito de “evangelização inculturada” e evoca uma nova maneira de se aproximar daqueles que, no próprio processo de evangelização, nem sempre são suficientemente respeitados.

    As exigências de uma evangelização inculturada não se fazem sentir somente entre distintas culturas ou tradições. O dinamismo interno e próprio de cada uma destas também condiciona o ritmo de uma evangelização inculturada. Por exemplo, os efeitos da urbanização e dos modernos meios de comunicação social no contexto da sociedade latino-americana, marcada pelo subdesenvolvimento social, tem uma pertinência não transcurável para a encarnação do Evangelho. E mérito do prof. Cristián Parker Gumucio demonstrá-lo.

    A rigor, nem Ari Pedro Oro e Francisco Cartaxo Rolim fogem das implicações religioso-culturais: o primeiro se debruça sobre as representações do dinheiro no pentecostalismo autônomo brasileiro - aspecto dos mais controvertidos; o segundo especifica a estreita relação entre pentecostalismo e política na história recente do Brasil e do Chile.

    Leonard M. Martin, completando a exposição iniciada no fascículo anterior, destaca aspectos éticos nos códigos brasileiros de ética médica, especificamente na relação médico-paciente terminal. A importância e a atualidade de posturas éticas dispensam comentários.

    O Mercosul se afirma. Intensifica a desejada integração regional da América do Sul. Porém, diante do fato, Inácio Neutzling se preocupa. Sonha com uma integração equilibrada, integral e humana. Por isso, busca critérios de caráter ético-teológico como forma de contribuir para que se estabeleça e se atinja uma meta mais pretensiosa.

    Por fim, uma palavra a respeito do atraso dos três últimos fascículos desta revista. Ele foi consequência do esforço de modernização gráfica e de reorganização administrativa, ocorrido na Editora Vozes (cf., REB 52(1992) 787-788). A Redação agradece, pois, a paciente compreensão de seus leitores, ao mesmo tempo em que se escusa pelos transtornos causados. Passada esta fase, os fascículos retomam o calendário normal.

    Frei Elói Dionísio Piva

    Redator

  • Santo Domingo
    v. 53 n. 209 (1993)

    Fiel a uma de suas intuições básicas, a REB se apresenta qual amplo espaço eclesial. Espelha a diversidade e o dinamismo da vida da Igreja de hoje, particularmente no Brasil e na América Latina.

    O primeiro bloco de assuntos se relaciona àquela que, com certeza, será um marco permanente no peregrinar da Igreja neste continente: a IV Conferência Geral do Episcopado Latino-americano em Santo Domingo. Avaliando o Encontro, Dom Luiz Demétrio Valentini, através de sua observação, aguda e anotada no calor dos fatos, oferece importantes elementos do contexto interpessoal em que se desenrolaram os fatos: confronto e confluência de pareceres, até se conseguir uma conclusão final. Dom Aloísio Lorscheider evidencia os grandes temas conclusivos da Conferência, temas estes que, ora mais, ora menos, espelham a reflexão e a prática da Igreja, hoje, neste Continente. Frei Almir Guimarães, específico, ao Documento de Santo Domingo pergunta: qual sua palavra a respeito de assunto tão candente como o da família.

    A vida humana é o objeto do segundo conjunto de abordagens. Marcial Maçaneiro contextua sua defesa no horizonte de aspectos de morte, presentes na cultura atual. Leonard M. Martin, de quem, agora, só apresentamos a Ia parte de seu trabalho, orienta sua indagação para um objeto inédito, certamente, e de grande interesse: o paciente terminal nos códigos brasileiros de ética médica. Por fim, em tomo da morte cerebral, Hubert Lepargneur coloca a possibilidade que o próprio homem aprimorou: manipulação e/ou respeito à vida.

    Paulo Fernando C. de Andrade observa o desenrolar da cultura moderna. Relaciona pós-modernidade e pastoral popular. Desperta sensibilidade com relação aos impactos e efeitos daquela sobre esta.

    Riolando Azzi aborda um tema muito caro ao nosso povo: a celebração da Paixão de Cristo. Recordando o “como” somos e o “por que” assim somos, valoriza nossa cultura religiosa popular.

    Enfim, nos Comunicados, Você encontra mais explicitações destes e de outros assuntos.

    Que estas abordagens, tirando do baú coisas novas e velhas, possam ajudar sua caminhada.

    Frei Elói Dionísio Piva

    Redator

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