v. 58 n. 231 (1998): Caminhos de salvação: Acosta & Ricci

Sempre mais, ao que tudo indica, toma-se consciência de que o contexto sócio-religioso em que vivemos se caracteriza pelo pluralismo. Por conta disso, talvez mais que cm outros tempos, pode apresentar-se a tentação do fundamentalismo. Talvez mais que em outros tempos também a convivência humana se apresenta como um desafio de acolhida da liberdade. Por isso, e certamente de maneira mais global do que em outras épocas, aos grupos sociais se apresenta a demanda de identidade; apresenta-se a demanda da compreensão das “sementes do Verbo”, semeadas não só no coração das pessoas, mas também cm todas as criaturas; apresenta-se a tarefa de se avaliar sabiamente convergências e divergências culturais e religiosas.

E neste esforço de ressituar-se em relação ao presente e ao futuro que o passado se apresenta como possibilidade de qualificação desta consciência de identidade. Por isso, sob pena de sofrer os efeitos de devaneios, quando se trata de reafirmar antigos caminhos e de desvendar novos horizontes de vida cristã ou de evangelização, a Tradição humana, cristã e católica, iluminada pela contribuição crítica do presente, se apresenta como uma possibilidade luminosa.

Neste contexto, Franz Helm nos apresenta um balanço crítico e comparativo do conceito de Salvação e sua aplicação prática em dois importantes catecismos da história da evangelização católica: o de José de Acosta, em meados do século XVI no Peru, e o de Matteo Ricci, no início do século XVII na China. A perspectiva desde o momento histórico em que vivemos nos dá a possibilidade de estabelecer estimulantes diferenças e semelhanças entre nós e eles a respeito da consciência da inculturação do Evangelho.

A possibilidade de algum momento do passado ser reinterpretado assinala a diferença entre nosso contexto sócio-cultural e o de quem viveu no aludido e hipotético momento. Este mecanismo significa a possibilidade de nos dar conta, mudadas as circunstâncias, de que também nós somos circunstanciados. Portanto, se, por um lado, este fenômeno é nossa possibilidade de encarnação, também é a possibilidade de tomar consciência da transcendência. Por isso, reler o passado é abrir-se à possibilidade de compreensão do outro e, levadas em conta as limitações e as chances do momento histórico, de resgatar a intuição originante. Especificamente, o que os padres conciliares de Trento intuíram ao colocar a salvação das almas como lei suprema? De que maneira pode ela ser resgatada, valorizada e contextualizada para os dias de hoje? Confira com Giuseppe Alberigo.

Prosseguindo, Eduardo Alfredo Morais Guimarães nos reconduz para nosso contexto sócio-religioso-cultural, evocando raízes e desafios entre modelos de igreja ao focalizar a devoção ao Senhor Bom Jesus do Bom Fim em Salvador, Bahia. Vale a pena conferir.

Em seguida, dois estudos nos possibilitam tomar consciência de momentos vividos pelo clero no Brasil: o de Ney de Souza, relativo à formação do clero no tempo colonial, e o de Alberto Antoniazzi, sintetizando a história recente dos presbíteros no Brasil e apontando algumas perspectivas.

Por fim, Clauber Pereira Lima nos apresenta um ensaio sobre o tema: profecia e salvação em Antônio Vieira. Veja por que, para Vieira, os indígenas eram profetas e pioneiros de uma nova humanidade.

Elói Dionísio Piva, ofm

Redator

Publicado: 2021-02-10

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