v. 73 n. 292 (2013): Fé cristã hoje

Editorial

Movida pela graça do Concílio Vaticano II, cujo cinquentenário é ocasião de se revisitar o evento e sua inspiração, a Igreja católica, como um todo, confirma e robustece a consciência de integrar a grande história da humanidade. Consequentemente, participa e toma consciência das rápidas e profundas mudanças socioculturais em curso. Toma consciência de não ser tão somente destinatária das mudanças, mas também, de uma forma ou de outra, de ser co-protagonista. Os horizontes que se abrem com o novo pontificado e o Ano da Fé, proposto por Bento XVI e ora em seu término celebrativo, são indicativos desta consciência eclesial. Nesse quadro, experimenta desafios e chances, entre outros aspectos, também com relação a um pilar estrutural de vida eclesial e do testemunho ou da contribuição que ela pode oferecer ao mundo: a fé em Jesus, o Cristo. E Francisco de Aquino Júnior analisa a crise da fé em nosso tempo, aponta alguns desafios epocais para acolhê-la como dom e tarefa, e apresenta-a, em seus frutos, como seguimento de Jesus Cristo, ou seja, como testemunho de vida na consecução do reinado de Deus.

É também no quadro do desenvolvimento das ciências e das tecnologias, principalmente as relacionadas à genética e às biotecnologias, pelas quais o ser humano adquiriu um poder que anteriormente não conhecia, o bipoder, motivo de esperança e de temor, que se coloca Antônio Moser. Nesse contexto, diz ele, a Igreja católica, partilhando o realismo que lhe vem da sabedoria da cruz e da ressureição de Jesus, e acolhendo o resultado dos esforços de todas as pessoas, apresenta-se como Igreja do “sim” em relação aos avanços científicos e tecnológicos sabiamente comprovados e abertos às maravilhas da Vida. A boa-nova da Vida em todas as suas formas e em todas as suas fases é o horizonte do Autor e a tônica da Igreja, particularmente na atualidade.De modo semelhante, na escolha do nome Francisco que o então card. Jorge Bergoglio fez para o ministério petrino, Celso Pinto Carias vê uma das principais características do testemunho cristão, e católico consequentemente: uma Igreja que, ampliando o sentido que o Papa Francisco atribuiu à sua missão na Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro, não tem ouro nem prata, mas oferece Jesus Cristo, pobre e humilde. Neste contexto, o A. vê confirmada a razão de ser dos seguidores de Jesus Cristo, particularmente nas CEBs.

A partir do pano de fundo da mudança epocal, da prática pastoral e da reflexão acumulada nos 50 anos do pós-Vaticano II e dos horizontes implementados no atual pontificado e, particularmente, pelo Papa Francisco, Antonio José de Almeida propõe um série de reformas que, segundo ele, certamente ajudariam a Igreja, no século XXI, a ganhar credibilidade no testemunho de Cristo e de seu Reino, a serviço da vida e da esperança dos homens e das mulheres de todos os povos e culturas, sobretudo dos pobres e esquecidos.

Por sua vez, Elias Wolff demonstra que a postura da Igreja a partir do Vaticano II possi-

bilita que ela, através de seus membros e em todas as instâncias, se situe adequadamente no contexto do sempre mais expressivo pluralismo religioso. Este situar-se não é simplesmente uma adequação externa, mas fruto de uma reinterpretação autêntica de suas fontes e Tradição. Segundo esta leitura, supera-se uma interpretação restrita do extra ecclesiam nulla salus, afirma-se que as religiões têm uma contribuição salvífica em Cristo e que o diálogo e a cooperação inter-religiosa podem e devem ser parte do testemunho da caridade de Deus.

Se, por um lado, o quadro sociorreligioso, com sua variedade de agremiações, com o ativo trânsito religioso hoje constatado, com o crescimento dos que se desfiliam ou não se filiam a alguma igreja, é rico em sintomas, por outro, apresenta-se como um desafio e como uma chance para o também emergente interesse acadêmico por estes fenômenos, representado pelas várias iniciativas institucionais de Estudos da Religião. Neste quadro, Emerson José Sena da Silveira e Nina Rosas sugerem metodologia de abordagem para os estudiosos dos fenômenos religiosos.

A REB agradece a oportunidade de divulgar tanta riqueza de análise e de propostas e compartilha a esperança naquele que se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza.

Elói Dionísio Piva ofm

Redator

Publicado: 2013-10-22