v. 76 n. 301 (2016): Ecoteologia

Apresentação

“Somos terra (cf. Gn 2,7). Nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; seu ar permite-nos respirar, e sua água vivifica-nos e restaura-nos” (LS 2). E de quanto somos capazes! E o que nos é dado estabelecer!

Cada um/a de nós pode tomar consciência de que é corpo. Juntos, também e igualmente podemos tomar consciência de que somos corpo. Vale dizer: sou terra; somos terra. Partimos de elementos dela. E “partir” de elementos seus também sinaliza tomada de consciência. Consciência de alteridade, como também de comunhão, de construção em rede, de geração de possibilidades, de interdependência. Mais: “partir” indica tomar consciência de uma instância própria no estabelecimento de cuidado e parceria, ou de domínio e tirania. E, sobremaneira, “partir” possibilita cair em si, maravilhar-se e tremer. Pois, é-nos dado romper as limites do próprio “dar-se conta”, ou seja, dialogar não só com outros, mas com Outro – com o Sol do amor e da justiça, com o desencadeador da criação, que nos convida, conscientes, para a parceria na atividade e “no resultado final”, para além da conta.

Em artigos e comunicações (de Francisco Borba Ribeiro Neto, Leonardo Boff, Nicolau João Bakker, Marcelo Barros e Ney Brasil Pereira), a REB apresenta elementos da atual crise ecológica, da atual busca por uma antropologia e teologia que respondam às interrogações acerca da vocação do homem – homem, que faz a “terra” “falar” e que percebe a prerrogativa de sua própria responsabilidade, como fator de vida ou de morte.

Além de ecologia, de ecoteologia, de crise ecológica e de cuidado para com a “casa comum”, apresenta-se, nesse fascículo da REB, uma fala sobre corpo e corporeidade, portanto, também sobre sexo e sexualidade, sobre relações de gênero – um assunto em voga. A diversidade/pluralidade da/na criação, mesmo somente sob o aspecto do gênero, bem como a desenvoltura criativa do ser humano, também a seu próprio respeito, sugerem interesse, prudência, auto-crítica e magnanimidade; cf., a respeito, o texto de Antônio Moser.

Quem tem Tradição e, em certas épocas, passa por dúvidas coletivas, normalmente recorre a seu “baú” e de lá retira antigas inspirações, que, surpreendentemente, se apresentam como novas! Foi o que fez Faustino Teixeira. Instigado pelos 500 anos do nascimento de Santa Teresa de Ávila, ele lhe fez uma visita e lhe pediu para recontar o itinerário de suas Moradas. Com efeito, ele bem sabia que nelas, como mestra de fina sensibilidade psicológica e pedagógica, Teresa discerne caminhos da mais genuína experiência cristã – caminhos antigos, novos, seguros, procurados.

E foi o que também fez Claudemir Rozin. Só que ele, como num momento segundo, percorre os principais momentos em que a Igreja recorreu a seu “baú”, ao fundo desse “baú”, ou seja, às suas próprias origens, à Comunidade apostólica de Jerusalém; às vezes, conclui, com alguma utópica esperança, outras vezes, porém, com a sabedoria de quem procura o mapa da sinalização da rota. E não é do que mais precisamos?!

Encerra com chave de ouro o pacote de artigos a segunda parte do percurso sobre a origem e evolução da hipótese da decisão final na hora da morte, chave oferecida por Renato Alves de Oliveira. Evocadas e avaliadas as argumentações pró e contra, bem como seus pressupostos antropológicos e teológicos, permanece tão só a hipótese!

Votos de fecunda atividade evangelizadora na etapa de tempo ora iniciada e em todo o tempo.

Elói Dionísio Piva ofm

Redator

Publicado: 2016-08-10