v. 76 n. 304 (2016): Teologia e Mercado Livre

Apresentação

Vários assuntos são propostos neste número. Todos eles, em suas abordagens teológico-pastorais, situam-se no contexto socioeclesial de nossos dias, mesmo que também tragam a sabedoria de outras épocas e culturas. E o aludido contexto assinala rápidas e profundas mudanças técnico-científicas, econômicas, culturais. São mudanças que também trazem ou geram crises de ordem ético-religiosa, humana. Portanto, é tendo em conta alguns aspectos indicados por este contexto, com suas chances e desafios, que Você, leitor/a, é convidado/a a dialogar com os articulistas que, através de seus textos, aqui se fazem presentes.

Assim, no âmbito da economia e de suas crises nos últimos anos, detecta-se a presença do mito do “mercado livre”. E a hipótese que se coloca é esta: não manifestaria ou até não seria este mito a causa do obscurecimento de direitos humanos fundamentais? Não alimentaria ele a propalada evidência de que os pobres seriam eles mesmos a causa de sua pobreza? Não geraria, pois, este mito a consequente cultura da indiferença social e ambiental, agravada pela geração da generalizada agressividade? Sem ceder à eventual acomodação à situação, a pergunta que se levanta é: que desafios traz para a teologia e a pastoral este mito (novo, em relação ao mito do desenvolvimento) idolátrico e sacrificial? Confira a análise e a inquietação com Jung Mo Sung.

Esta análise e inquietação-proposição de Mo Sung continua com a abordagem da crise ético-política no Brasil, por Nicolau João Bakker. Está claro o desejo de que a teologia, ou seja, os teólogos, os pastores e as demais lideranças religiosas se interessem por uma teologia e por uma prática públicas, ou seja, que não se alienem das questões sociais. Mas, como manter o específico de sua missão religiosa, de modo que ela sempre apareça como boa-nova e contribua para a vocação de plenitude do ser humano?

Por sua vez, César Kuzma, mesmo diante de algumas mudanças de acento em setores da Igreja católica, recoloca e repropõe a missão da Igreja: missão de pobre e a partir do pobre, ou seja, de busca e de testemunho de uma maneira de ser que tome distância dos ídolos do poder, que siga os caminhos de Jesus Cristo e, portanto, que espelhe a riqueza do Evangelho. A autocrítica a partir da escuta e do anúncio de Jesus Cristo é proposta à Igreja católica, em relação a ela mesma, por Mário de França Miranda. Com efeito, muitas vozes clamam pela necessidade de reforma, hoje; reforma que, até na busca de consensos, como sempre, suscita análises e propostas diferentes e até divergentes. Mas, uma direção parece segura: os consensos buscados situam-se, não só, mas principalmente, além de reformas de caráter administrativo, institucional ou estético; busca-se mudança de mentalidade, no sentido de que ela signifique fidelidade apostólica e consequente contribuição social.

Luís Miguel Figueiredo Rodrigues focaliza a missão da Igreja católica no caminho da comunicação humana, particularmente, hoje, potenciada pelos meios eletrônicos. Ele incentiva a considerar as potencialidades da Web para a educação cristã, ou seja, para o exercício da sã Tradição.

Por fim, Wagner Ferreira da Silva dirige sua atenção para uma categoria da liderança católica: os sacerdotes, embora sem restringir-se a eles. Trata, especificamente, da formação e do amadurecimento humano-afetivo dos padres, em vista de si mesmos e do exercício de seu múnus sacerdotal. Ele propõe a arte de ajudar-se, deixando-se ajudar.

Que a humanidade de nosso Deus, no mistério de Jesus, o Ungido, encante a todos.

Elói Dionísio Piva ofm

Redator

Publicado: 2016-08-08