v. 77 n. 307 (2017): Discernimento da Consciência

Em destaque neste número, a misericórdia, característica do Deus de Jesus, o Cristo. Ela se manifesta em Maria, a mãe do Senhor, como dom do próprio de Deus, acolhida e anunciada por ela, como dom para seu povo, a quem cabe a acolhida criativa. Além de evocar esta “janela”, o presente número considera a misericórdia na esteira do Papa Francisco, particularmente a partir da Encíclica Amoris Laetitia. Relaciona-a, pontualmente, com a pastoral familiar. Realça-se aqui a confluência da graça de Deus e da dinâmica humana, acolhedora da graça. Esta dinâmica é evocada através do papel exercido pelo discernimento da consciência. Nisso evidencia-se a autonomia e a responsabilidade humanas. “Todo cristão é chamado a ser um protagonista crítico do caminho iniciado pelo Espírito Santo no coração humano”, afirma André Luiz Boccato de Almeida, articulando a lógica da misericórdia pastoral. Como a Igreja, em suas diversas instâncias, exercita o discernimento responsável em relação à misericórdia de Deus na pastoral familiar?

A conjugalidade é, por sua vez, evidenciada como característica do amor esponsal na mesma Encíclica Amoris Laetitia. Pela conjugalidade se entende a íntima relação do casal, construída tanto na acolhida do que se pode convencionar de um sentimento e de uma vontade livre, que, para os casais cristãos, se inspira em Deus, na ação de Jesus Cristo.  Conjugalidade, um eu que se dirige a um tu e, acolhido, na circularidade, forma e se torna um nós! Critério de pertença à Igreja de Jesus Cristo e acolhida por ela? Mário Antonio Sanches e Luiz Fernando de Lima tratam desse assunto.

Maria Emilia de Oliveira Schapallir Silva, Márcio Fabri dos Anjos e Alfredo Antonio Fernandes abordam o tema da reprodução humana do pondo de vista bioético. O horizonte desejável é o de entender e conduzir existencialmente a autonomia e a relacionalidade de toda pessoa. Uma pessoa autônoma, no sentido de autossuficiência, carece de sentido; mas, sentido há quando da inclusão de outra autonomia, estabelecendo-se uma correlação, que chega a ser uma mútua pertença, portanto, uma partilha as decisões, como a respeito da reprodução.

As considerações até aqui articuladas dão-se, de alguma forma, no âmbito de uma compreensão humano-eclesial. Mas, sempre se pode perguntar pelo que se entende por um determinado assunto. Aqui, a pergunta pode ser dirigida à noção de Igreja. Pergunta-se pela compreensão de Igreja (católica) do Vaticano II. Pergunta-se, mais: como chegaram os Padres conciliares a colocarem-se de acordo em torno da noção de Igreja, mesmo que esta se apresentava com uma longa tradição. Para isso, Antonio Luiz Catelan Ferreira apresenta Yves Congar como um dos articuladores da eclesiologia do Vaticano II. O A. parte de dois escritos de Congar anteriores ao Concílio, para apresentar a noção de Igreja-comunhão. E esta comunhão “é caracterizada como comunhão com Deus e dos homens entre si, em Cristo. Sua fonte é o amor, bem divino, infuso, segundo o qual a Igreja é communio caritatis”. Estamos diante de uma gênese.

Por fim, o exercício de Mário de França Miranda para discernir os caminhos da identidade da Teologia em relação à racionalidade moderna e às ciências da religião. A fé é razoável? A razoabilidade pertence à fé? Como a fé se traduz em expressões humanas?

Elói Dionísio Piva ofm

Redator

Publicado: 2017-08-07